Etapas do processo interventivo: fármacos, grupos de apoio, o protocolo STICA e as três fases
O que a farmacologia oferece e com que evidência, o lugar dos grupos de apoio, o protocolo STICA e seu ensaio clínico, e as três fases do processo interventivo: psicoeducação, intervenções e prevenção de recaídas.
Sobre este material
Material de estudo dirigido a psicólogos, escrito a partir dos slides do oitavo vídeo da disciplina, sobre as etapas do processo interventivo. Não havia transcrição.
A tabela de farmacologia foi mantida como os slides a apresentam, com uma moderação sobre o peso da evidência de cada classe, sinalizada no texto. Psicólogo não prescreve; a seção serve para conversar com o psiquiatra.
- Fármaco é adjuvante, e a evidência é desigual. Antagonistas opioides têm o melhor apoio para jogo de azar; ISRS ajudam pela comorbidade; lítio, no bipolar; antipsicóticos, quase nunca.
- Jogadores Anônimos existe no Brasil e custa zero. Doze passos, reuniões presenciais, anonimato. Serve de rede para o paciente que não tem outra, e não substitui a terapia.
- STICA: 23 sessões em quatro meses, grupo mais individual. Protocolo cognitivo-comportamental para dependência de internet e jogos, testado em ensaio randomizado publicado no JAMA Psychiatry em 2019.
- Três fases, três objetivos. Psicoeducação para entender o ciclo e querer mudar; intervenções para mudar pensamento e comportamento; prevenção de recaídas para manter.
- A fase inicial é onde se perde o paciente. Entrevista motivacional, balança de vantagens e desvantagens e metas realistas vêm antes de qualquer redução. O vídeo 9 é sobre isso.
Farmacologia: o que existe e com que evidência
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O vídeo abre com uma tabela de medicações usadas no jogo patológico. Ela está aqui como o slide a apresenta, seguida de uma moderação, porque o peso da evidência varia muito de uma linha para outra.
- Fluoxetina, paroxetina (ISRS): redução da compulsão e controle de impulsos; úteis quando há comorbidade com depressão ou ansiedade.
- Naltrexona (antagonista opioide): reduz o prazer associado ao jogo e a frequência dos episódios; eficaz em pacientes com comportamento de jogo altamente recompensador.
- Lítio (estabilizador de humor): redução de impulsividade e estabilização emocional; especialmente útil em pacientes com transtorno bipolar.
- Topiramato (estabilizador de humor, anticonvulsivante): redução da excitação associada ao jogo; pode ajudar com impulsividade.
- Quetiapina, olanzapina (antipsicóticos atípicos): indicados em casos com sintomas psicóticos ou comorbidades graves; uso limitado, geralmente adjuvante.
Uma moderação, para conversar com o psiquiatra
Nenhuma medicação tem aprovação específica para transtorno do jogo, e as metanálises mostram efeitos modestos. O que se sustenta melhor: os antagonistas opioides (naltrexona, nalmefeno) têm o corpo de ensaios mais consistente, sobretudo em quem tem fissura intensa ou história familiar de alcoolismo. Os ISRS têm resultados mistos quando o jogo é o alvo direto; funcionam melhor como tratamento da comorbidade. O lítio tem um ensaio positivo em jogadores com espectro bipolar, e é para esse subgrupo. O topiramato tem estudos pequenos. Os antipsicóticos não mostraram benefício sobre o jogo em si nos ensaios com olanzapina; a indicação da tabela é para a comorbidade psicótica, não para o jogo. Em resumo: fármaco é adjuvante, escolhido pela comorbidade e pela fissura, e a psicoterapia continua sendo o tratamento de primeira linha. As duas fontes citadas no slide (Weinstock e Ledgerwood, 2008; Júnior e Sousa, 2024) não puderam ser conferidas e ficaram fora das referências; a metanálise que sustenta esta moderação está lá.
Grupos de apoio: Jogadores Anônimos
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O segundo slide é o site dos Jogadores Anônimos no Brasil: os doze passos de recuperação, os doze de unidade, as vinte perguntas, literatura, depoimentos, anonimato, reuniões presenciais, e os endereços dos escritórios de serviço em São Paulo e no Rio de Janeiro. O vídeo o apresenta como recurso a indicar.
Vale saber o que ele é e o que não é. É uma irmandade de doze passos, no modelo dos Alcoólicos Anônimos, gratuita, com reuniões regulares e uma rede de pessoas que passaram pelo mesmo. Para o paciente que perdeu a rede social por causa do jogo (critério 8 do vídeo 6), isso tem valor que a terapia individual não consegue oferecer. O que ele não é: tratamento com evidência controlada. A adesão costuma ser baixa e a evasão, alta, e os estudos mostram resultado melhor quando o grupo é combinado com psicoterapia, e não usado sozinho.
O protocolo STICA e o ensaio clínico
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O manual STICA (Short-term Treatment for Internet and Computer game Addiction) é baseado numa abordagem cognitivo-comportamental e combina sessões de terapia em grupo com atendimentos individuais. O protocolo compreende 23 sessões ao longo de quatro meses. O slide mostra o artigo que o testou: Wölfling e colaboradores, ensaio clínico randomizado publicado no JAMA Psychiatry em 2019.
O que o ensaio mostrou, em resumo: adultos do sexo masculino com dependência de internet ou de jogos, tratados com o STICA, tiveram taxa de remissão bem maior que os do grupo em lista de espera ao fim dos quatro meses, com redução dos sintomas e do tempo de uso. É um dos poucos ensaios randomizados de porte na área, e por isso o protocolo serve de referência: não porque seja o único caminho, mas porque foi testado.
A estrutura dele é a que o vídeo desdobra na seção seguinte: uma fase de psicoeducação e motivação, uma fase de intervenções comportamentais, cognitivas e de habilidades, e uma fase de estabilização e prevenção de recaídas, com grupo para o treino e individual para o que é de cada um.
As três fases do processo interventivo
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Fase inicial: psicoeducação
Objetivo: conscientizar o paciente sobre o transtorno e os mecanismos de manutenção do comportamento aditivo. Educação sobre modelos de aprendizagem e reforço, sobre o ciclo da dependência (o do vídeo 6) e sobre o impacto neurobiológico. Técnicas: entrevista motivacional, análise de vantagens e desvantagens do comportamento atual, e estabelecimento de metas terapêuticas realistas.
É a fase em que se perde o paciente, e por um motivo simples: ele chegou trazido, ou chegou querendo parar de sofrer sem parar de usar. Antes de qualquer redução, é preciso que a mudança seja dele. Por isso a entrevista motivacional abre a lista, e por isso o vídeo 9 é inteiro sobre ela.
Fase intermediária: intervenções
Objetivo: modificar padrões de pensamento e comportamento desadaptativos. Três frentes.
- Intervenções comportamentais: monitoramento do uso e do humor (a EMA do vídeo 7 continua aqui), redução gradual do tempo online, substituição por atividades offline, exposição gradual a situações evitadas, como atividades sociais.
- Treinamento em habilidades: solução de problemas, comunicação social e assertividade, organização e gestão do tempo. É aqui que se repõe o que a tela fazia pela pessoa: a interação controlável da ansiedade social, a fuga da tarefa difícil, a ocupação do tempo vazio.
- Intervenções cognitivas: reestruturação cognitiva, das cognições permissivas do ciclo ("só dez minutos") e, no jogo de azar, das crenças sobre o acaso (vídeo 5).
Fase final: prevenção de recaídas
Objetivo: consolidar mudanças, manter ganhos e prevenir recaídas. Reforço da autoeficácia; planejamento de situações de risco; elaboração de plano de ação em caso de recaída; discussão sobre o uso funcional da internet, porque abstinência total de tela não é meta viável para quase ninguém; estabelecimento de rotina saudável; e acompanhamento do progresso com tarefas entre sessões.
Duas observações sobre a ordem
Primeira: a sequência é didática. A psicoeducação volta sempre que a motivação cai, e a prevenção de recaídas começa na primeira redução que dá certo, porque é ali que aparece a primeira situação de risco real. Segunda: a "redução gradual do tempo online" é o item que mais tenta o terapeuta a começar por ele. O ciclo do vídeo 6 explica por que isso não segura sozinho: o comportamento é a única etapa que o ciclo repõe automaticamente. Reduzir horas sem repor a função é combinar recaída.
Lendo o vídeo em processos
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As três fases mapeiam com folga numa formulação processual, e a leitura ajuda a decidir o que fazer com cada paciente, em vez de aplicar o protocolo em ordem.
- Psicoeducação e entrevista motivacional trabalham o nó de motivação e o de self: a pessoa passar a ver o ciclo como dela, e a mudança como dela. Sem esse nó, o resto não engata.
- Monitoramento e redução gradual mexem na frequência do comportamento; substituição e exposição mexem no que ele evita; habilidades repõem a função. São três alvos diferentes, e o paciente costuma precisar mais de um que dos outros.
- Reestruturação cognitiva mira as cognições permissivas e, no jogo de azar, a ilusão de controle. É a alça cognitiva do ciclo.
- Prevenção de recaídas é o trabalho sobre a alça de manutenção: o que fazer quando a emoção reativa (vergonha, frustração) tentar reabrir o precipitante.
- Fármaco e grupo de apoio entram pelo contexto: comorbidade e fissura, de um lado; rede social perdida, de outro.
Na prática: o protocolo dá a caixa de ferramentas e a ordem sugerida; a formulação diz qual ferramenta este paciente precisa primeiro.
1. Descreva as cinco classes de medicação da tabela e diga, para cada uma, qual é o peso da evidência para o jogo de azar.
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2. O que os Jogadores Anônimos oferecem que a psicoterapia individual não oferece, e qual é o limite dessa indicação?
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3. O que é o protocolo STICA, como é estruturado e o que o ensaio de 2019 mostrou?
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4. Enumere as três fases do processo interventivo, com o objetivo e as principais técnicas de cada uma.
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5. Por que reduzir o tempo online sem repor a função costuma falhar? Use o ciclo do vídeo 6 na resposta.
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6. Pense num paciente teu. Em que fase ele está de fato, e qual ferramenta do protocolo ele precisa primeiro?
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Referências
- Goslar, M., Leibetseder, M., Muench, H. M., Hofmann, S. G., & Laireiter, A.-R. (2019). Pharmacological treatments for disordered gambling: A meta-analysis. Journal of Behavioral Addictions, 8(2), 194–208.
- Petry, N. M. (2005). Pathological gambling: Etiology, comorbidity, and treatment. American Psychological Association.
- Potenza, M. N., Balodis, I. M., Derevensky, J., Grant, J. E., Petry, N. M., Verdejo-Garcia, A., & Yip, S. W. (2019). Gambling disorder. Nature Reviews Disease Primers, 5, 51.
- Stevens, M. W. R., King, D. L., Dorstyn, D., & Delfabbro, P. H. (2019). Cognitive-behavioral therapy for internet gaming disorder: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology & Psychotherapy, 26(2), 191–203.
- Wölfling, K., Müller, K. W., Dreier, M., Ruckes, C., Deuster, O., Batra, A., Mann, K., Musalek, M., Schütz, C., Hanke, S., & Beutel, M. E. (2019). Efficacy of short-term treatment of internet and computer game addiction: A randomized clinical trial. JAMA Psychiatry, 76(10), 1018–1025.
Fonte. Este resumo foi escrito a partir dos slides do vídeo, sem transcrição da fala. A descrição do que o ensaio do STICA mostrou, a leitura dos Jogadores Anônimos como complemento, as duas observações sobre a ordem das fases e a seção final em processos foram desenvolvidas pelo autor do material a partir da lógica da disciplina e da literatura citada.
Uma moderação, sinalizada no texto. A tabela de farmacologia foi mantida como o slide a apresenta, e o material acrescenta o peso da evidência por classe, com base na metanálise de Goslar e colaboradores (2019) e na revisão de Potenza e colaboradores (2019): antagonistas opioides com o apoio mais consistente, ISRS pela comorbidade, lítio no espectro bipolar, topiramato com estudos pequenos, antipsicóticos sem benefício sobre o jogo. As duas fontes citadas no slide (Weinstock e Ledgerwood, 2008; Júnior e Sousa, 2024) não puderam ser conferidas e ficaram fora das referências. Psicólogo não prescreve; a seção existe para a conversa com o psiquiatra.
Nenhuma citação foi construída para preencher lacuna.

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