Newsletter · Lógica Psicológica
O que saiu no último mês
Edição de setembro de 2026
Seleção e comentário de Prof. Júlio Gonçalves · Três achados publicados entre maio e agosto de 2026
Três estudos que chegaram nas últimas semanas e que mudam alguma coisa na conversa com o paciente — cada um com o que ele sustenta e com o que ele não autoriza dizer.
Como lerCada item traz o achado em três linhas. Se interessar, abra: dentro estão o desenho do estudo, o que muda na clínica e o limite do que ele permite afirmar. O link leva à fonte original.
Metanálise · World Psychiatry
Os efeitos da psicoterapia para depressão se sustentam por anos
Uma metanálise abrangente reuniu ensaios randomizados com seguimento de seis meses ou mais e encontrou que o benefício da psicoterapia para depressão em adultos persiste vários anos após o término do tratamento, em comparação com condições-controle.
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O que foi feitoForam incluídos ensaios randomizados que compararam psicoterapias para depressão adulta com condições-controle — cuidado habitual, lista de espera ou outras — e que relataram desfechos a partir de seis meses após a randomização. O desfecho principal foi a diferença média padronizada, complementada por taxas de resposta e risco relativo.
O que muda na clínicaÉ argumento para a conversa sobre expectativa e alta. O efeito não é apenas alívio durante o acompanhamento: há sustentação depois. Isso muda o que se pode dizer ao paciente que pergunta se vai precisar de terapia para sempre, e reforça o valor de trabalhar prevenção de recaída durante o tratamento, e não como tópico final.
O que o estudo não autoriza dizerOs próprios autores pedem cautela na leitura dos desfechos além de dois anos, pelo número reduzido de estudos com seguimento longo. Também não permite comparar modalidades entre si, nem afirmar que qualquer psicoterapia produz o mesmo efeito duradouro — a comparação é com controle, não entre abordagens.
Cuijpers, P., Miguel, C., Kaya Aglio, E., van Straten, A., et al. (2026). Long-term effects of psychotherapies for depression: an advanced meta-analysis.
World Psychiatry.
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Revisão sistemática e metanálise multinível · JMIR
Terapia por vídeo e presencial: sem diferença de eficácia, com uma ressalva grande
Revisão com critérios metodológicos estritos comparou psicoterapia síncrona por vídeo e presencial em adultos. Ao longo de 41 tamanhos de efeito, não houve diferença significativa na redução de sintomas (g = −0,09). A heterogeneidade entre estudos, porém, foi substancial.
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O que foi feitoBusca em bases bibliográficas até maio de 2025, com atualização em março de 2026. Dos 11.386 registros identificados, 12 ensaios randomizados atenderam aos critérios — dose mínima de tratamento de 500 minutos, exposição híbrida limitada a um terço das sessões e condução por profissionais de saúde. Diagnósticos incluídos: TEPT, depressão, TOC, bulimia nervosa, transtorno de ansiedade generalizada e dor somatoforme.
O que muda na clínicaSustenta o atendimento por vídeo como formato defensável para adultos, em quadros comuns, quando o tratamento tem dose adequada. Para a realidade brasileira, em que o online ampliou muito o acesso, é o tipo de dado que serve tanto para conversar com o paciente quanto para responder a colegas céticos — sem precisar recorrer a impressão pessoal.
O que o estudo não autoriza dizerNão autoriza dizer que “dá na mesma” em qualquer caso. A base de evidência é pequena e predominantemente ocidental, e o intervalo de predição de 95% foi amplo (−1,65 a 1,46), o que significa que em um caso ou contexto particular a diferença pode ser relevante nos dois sentidos. Também não cobre crianças, atendimento em grupo, formatos por telefone ou assíncronos.
Comparing video-based and face-to-face psychotherapy: systematic review and multilevel meta-analysis across mental disorders (2026).
Journal of Medical Internet Research.
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Revisão metodológica · Clinical Psychology Review
Um chamado para ler metanálises com mais critério
Revisão publicada em agosto argumenta que ensaios randomizados e metanálises em psicoterapia seguem limitados por fragilidades metodológicas e confusão conceitual — e propõe distinções que mudam a forma de interpretar resultado de tratamento.
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O que foi feitoO texto separa conceitos que costumam ser tratados como equivalentes: resposta e efeito; mudança mínima importante e menor diferença que vale a pena; e medidas absolutas versus relativas de efeito. Defende razões de chances e diferenças médias padronizadas como índices mais generalizáveis, complementados por taxas de eventos nos grupos controle e experimental.
O que muda na clínicaÉ leitura de método, não de conduta — e por isso vale para tudo o que se lê depois. A distinção entre responder e melhorar, em particular, é a que mais se perde na divulgação: um tratamento pode ter taxa de resposta alta e efeito modesto sobre o controle, e as duas informações contam histórias diferentes ao paciente.
O que o estudo não autoriza dizerNão é um estudo de eficácia e não altera nenhuma recomendação clínica específica. Serve para calibrar leitura — e é justamente por isso que não deve ser citado como se dissesse algo sobre qual terapia usar.
Furukawa, T. A., et al. (2026). Rethinking and advancing meta-analyses and randomized trials of psychotherapies.
Clinical Psychology Review, 129, 102797.
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Nota de métodoA seleção é editorial e não pretende ser exaustiva: privilegia achados com desenho sólido e consequência prática para quem atende. Cada item é parafraseado a partir do resumo publicado, sem transcrição, e traz o link para a fonte primária — a leitura do original continua sendo responsabilidade de quem for citar. O campo o que o estudo não autoriza dizer é parte fixa do formato: existe para que a newsletter informe sem alimentar o entusiasmo que costuma acompanhar achado novo.

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