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Jornada da Leitura
Resumo de aula · Jornada da Leitura

Repensando a ciência e a prática clínica

Capítulo 1
27/01/2026 · Apresentação de Prof. Júlio Gonçalves · Hofmann, Hayes & Lorscheid — Aprendendo a Terapia Baseada em Processos, cap. 1

Da lógica de "um protocolo para cada síndrome" a uma clínica de processos: por que olhar para redes de processos modificáveis, e não só para diagnósticos.

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O essencial
  • A TBP não é uma nova abordagem, nem substitui as existentes. É uma forma de compreender e estruturar a intervenção, centrada em processos — um complemento às abordagens com evidência.
  • O modelo dominante — "um protocolo para cada síndrome" — nasceu de uma necessidade de pesquisa (homogeneizar grupos), mas estreitou o olhar clínico ao sintoma.
  • O alvo da TBP são processos transdiagnósticos modificáveis (ruminação, preocupação, intolerância à incerteza, perfeccionismo...), organizados nos domínios do EEMM.
  • A formulação vira uma rede: elementos interligados cujas relações se sustentam no tempo; intervir na rede transforma a estrutura.
  • Muda a pergunta clínica: não "qual protocolo para este transtorno?", mas "quais processos, no contexto e nos objetivos desta pessoa, eu posso modificar?".

O que é (e o que não é) a Terapia Baseada em Processos

A aula abriu situando a Terapia Baseada em Processos (TBP) não como mais uma escola, mas como uma forma de compreender e estruturar a intervenção — um jeito de raciocinar clinicamente centrado em processos, e não em diagnósticos. Ela é apresentada como complemento, não substituto: reconhece as contribuições dos modelos existentes e propõe organizá-las melhor.

A aposta de fundo é que o futuro da psicologia clínica é o de uma ciência ao mesmo tempo rigorosa e dinâmica — capaz de personalizar o cuidado, inclusive com apoio de tecnologia.

O clínico já faz ciência — e uma breve história do método

Antes da clínica, uma pergunta: o que é ciência? O grupo convergiu para algo próximo de observação sistemática + formulação de hipóteses + busca de comprovação por métodos claros e mensuráveis — e Júlio lembrou que o clínico faz isso o tempo todo, ainda que intuitivamente, quando levanta hipóteses sobre um caso e as testa na condução.

A capacidade de raciocinar por evidências é antiga: aparece já numa forma rudimentar em outros primatas, que avaliam pistas do ambiente para decidir. Dela até o método moderno há uma longa trajetória — a razão substituindo o mito na Grécia (Aristóteles, lógica e observação); o esboço do método experimental no mundo islâmico medieval (Ibn al-Haytham, separando opinião de evidência por hipóteses, testes e registros); o recuo sob a autoridade teológica na Europa medieval; o retorno à observação no Renascimento; e, enfim, a Revolução Científica (Galileu, Bacon, Descartes, Newton). No século XX, Popper acrescenta a falseabilidade e Kuhn, a ideia de paradigmas.

Como a psicologia se tornou ciência

Na psicologia, a mensuração veio antes da clínica: a psicofísica de Weber e Fechner, em meados do século XIX, já media sensações. Em 1879, Wilhelm Wundt abre em Leipzig o primeiro laboratório de psicologia experimental — mas seu método, a introspecção, esbarrava num limite: a percepção humana é subjetiva e pouco coesa.

A psicologia clínica científica cresce com o estudo da aprendizagem — Pavlov, Thorndike, Watson e Skinner —, que fundamenta práticas contemporâneas como a ACT e a DBT. A revolução cognitiva traz a cognição para o centro; Aaron Beck organiza um dos primeiros ensaios controlados da Terapia Cognitiva para depressão, com resultados comparáveis à medicação (Rush et al., 1977).

A crise e a ascensão dos diagnósticos

Em 1952, Eysenck publicou um levantamento provocador: os dados disponíveis não sustentavam que a psicoterapia da época facilitasse a recuperação — a melhora poderia dever-se a outros fatores, como a passagem do tempo. A crítica cobrou rigor do campo.

A resposta foi tornar a psicologia mais "científica" pela via da categorização: sistemas como a CID (por volta de 1948) e o DSM passaram a homogeneizar grupos para viabilizar a pesquisa. Isso foi útil — e casou com a ascensão da indústria farmacológica —, mas teve um custo: o foco estreitou-se ao sintoma, inaugurando a lógica de "um protocolo para cada síndrome".

Os limites de "um protocolo para cada síndrome"

O problema não é o protocolo em si, e sim tratá-lo como se o paciente tivesse apenas a condição estudada na pesquisa. Alguns limites discutidos:

  • O escore não é a pessoa. Uma alta guiada só por ponto de corte de instrumento pode mascarar risco — Júlio citou um caso com escore "de alta", mas ainda com ideação suicida relevante.
  • Recaída alta. Na depressão, algo em torno de metade dos pacientes recai em dois anos — sinal de que reestruturação e ativação, sozinhas, podem não bastar.
  • Fica de fora o essencial. Contexto, história, relações e cultura — que sustentam o sofrimento — não cabem no manual estreito.
O ponto de virada
O primeiro passo para melhorar a prática é olhar a pessoa como um ser humano que sofre num contexto específico, com uma história — e não como uma categoria diagnóstica.
Do protocolo ao processo
MODELO ANTIGODiagnóstico define o protocoloVIRADAProcessos transdiagnósticosmodificáveisFORMULAÇÃOA rede do caso guia a intervenção
A pergunta clínica muda de “qual tratamento para este transtorno?” para “quais processos posso modificar?”.

A virada: processos e o modelo de rede

Em vez do diagnóstico, a TBP mira processos transdiagnósticos modificáveis — ruminação, preocupação, intolerância à incerteza, perfeccionismo — organizados nos domínios do metamodelo evolucionário estendido (EEMM):

  • Atenção, Cognição, Self, Afeto, Comportamento, Motivação — os processos psicológicos;
  • Biofisiológico, Contexto e Sociocultural — as dimensões que os atravessam.

No modelo antigo, o diagnóstico define o caminho; na TBP, são os processos que guiam — se o processo muda, a intervenção muda. E esses processos não vivem soltos: formam uma rede, um sistema de elementos interligados cujas relações se sustentam ao longo do tempo. Intervir na rede transforma a estrutura como um todo. Essa rede é a própria formulação do caso — construída com investigação, monitoramento e curiosidade genuína sobre a vida da pessoa (por exemplo, ligando práticas parentais a processos adultos).

A pergunta que muda tudo

A diferença entre os dois modos aparece já na pergunta que o terapeuta se faz:

Pelo protocolo

"Qual tratamento é mais eficaz para este indivíduo com este transtorno?"

Pelo processo

"Quais processos biopsicossociais, no contexto e nos objetivos de vida desta pessoa, eu posso modificar?"

Júlio ilustrou com um caso de transtorno bipolar num contexto caótico — sem dinheiro para a medicação, com um parceiro em uso de drogas: antes de aplicar o tratamento clássico, o foco recai sobre os processos contextuais modificáveis. E, porque o critério é o processo (não o rótulo), a TBP autoriza usar técnicas de qualquer abordagem com boa evidência — o que interessa é o que move a rede na direção dos objetivos da pessoa.

Levar para a prática
Para revisar — responda

1. Por que "um protocolo para cada síndrome", embora útil para a pesquisa, pode estreitar demais o olhar clínico?

2. O que muda quando a pergunta deixa de ser "qual tratamento para este transtorno?" e passa a ser "quais processos modificáveis, neste contexto?"

3. O que é uma "rede" de processos — e por que ela funciona como a formulação viva do caso?

4. Em que sentido a TBP é um complemento, e não um substituto, das abordagens com evidência?

Salvo neste aparelho

Referências

  1. Eysenck, H. J. (1952). The effects of psychotherapy: An evaluation. Journal of Consulting Psychology, 16(5), 319–324.
  2. Rush, A. J., Beck, A. T., Kovacs, M., & Hollon, S. D. (1977). Comparative efficacy of cognitive therapy and pharmacotherapy in the treatment of depressed outpatients. Cognitive Therapy and Research, 1(1), 17–37.
  3. Hofmann, S. G., & Hayes, S. C. (2019). The future of intervention science: Process-based therapy. Clinical Psychological Science, 7(1), 37–50.
  4. Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Ciarrochi, J. (2022). Process-Based Therapy: The Science and Core Clinical Competencies of Psychological Flexibility. Oakland, CA: Context Press.
  5. Hofmann, S. G., Hayes, S. C., & Lorscheid, D. N. (2021). Learning Process-Based Therapy: A Skills Training Manual for Targeting the Core Processes of Psychological Change in Clinical Practice. Oakland, CA: New Harbinger. [Ed. bras.: Aprendendo a Terapia Baseada em Processos, cap. 1.]
Nota de métodoCorrigi nomes que a transcrição por voz trocou: Wundt (não "VUNt"), Fechner (não "Fashioner") e Ibn al-Haytham (não "Ibra Raitan"); a crítica de 1952 é de Eysenck. As datas de CID/DSM e da psicofísica foram apresentadas de forma aproximada. O caso "Bill" é o exemplo ilustrativo do capítulo, referido aqui em paráfrase, sem reproduzir o texto do livro. As taxas de recaída e as críticas aos protocolos foram mantidas como pontos de discussão da aula, ancorados na literatura de TBP (Hofmann & Hayes, 2019).
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