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Jornada da Leitura
Resumo de aula · Jornada da Leitura

Processos motivacionais

Capítulo 10
09/06/2026 · Apresentação de Profa. Ana Flávia Miranda Caldas · Mediação de Prof. Júlio Gonçalves · Hofmann, Hayes & Lorscheid — Aprendendo a Terapia Baseada em Processos, cap. 10

Valor não é meta, e convencer não é motivar. Como distinguir motivações adaptativas das que só aliviam no curto prazo, e como trabalhar a ambivalência sem entrar em disputa com o paciente.

Como usarAbra as seções que quiser ler, marque o que pretende aplicar e responda o que fizer sentido. Tudo fica salvo neste aparelho — ninguém mais vê.
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O essencial
  • Valor não é quantificável; objetivo é. “Ser um bom pai” é valor; “passar duas tardes por semana com o filho” é objetivo. Confundir os dois é das falhas mais comuns na prática.
  • Comportamento mal adaptativo tem ganho. O que parece autossabotagem costuma entregar alívio de curto prazo — e é esse ganho que sustenta o padrão.
  • O planejamento é a ponte. Sem ele, o valor fica declaração e o objetivo fica intenção.
  • Convencer é risco iatrogênico. Tentar provar ao paciente o que é certo aumenta a ruminação e desgasta a aliança. O papel é colaborar para que a motivação surja dele.
  • A pergunta da EM é outra: não “o que te impede de mudar”, e sim o que você ganha em permanecer como está.

Um domínio com pouca literatura — e por que isso importa

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Esta é a décima aula da jornada, com cerca de vinte horas acumuladas de TBP. Vieram antes a base epistemológica, a avaliação e a intervenção nos processos atencionais, cognitivos, de self e de afeto. Os processos motivacionais entram aqui, antecedendo os comportamentais.

E o encontro começou por uma constatação honesta: há pouco material acadêmico sobre motivação em psicoterapia no Brasil. Mesmo na literatura de referência da TBP, Hayes e Hofmann não oferecem definições formais nem clareza sobre como avaliar e intervir nesse domínio — ficam numa divisão geral entre motivação aversiva e positiva.

O que fazer com uma lacuna dessas
Uma lacuna na literatura não autoriza improviso, mas exige que o terapeuta seja mais explícito sobre de onde tira o que faz. Boa parte do que se usa clinicamente neste domínio vem de fora da TBP — da ACT, da DBT, da Entrevista Motivacional, da teoria de metas — e é integrada pela função que cumpre na rede. Vale saber disso ao ensinar e ao supervisionar.

Motivação como função dentro da rede

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A definição de trabalho: motivação são os processos internos e externos que direcionam o comportamento em direção a metas ou necessidades.

Na TBP, porém, a pergunta não é “quanta motivação ele tem”, e sim que função aquela motivação exerce dentro da rede daquele paciente. Daí a distinção que organiza a aula: a motivação é adaptativa ou mal adaptativa?

E aqui vem o ponto que muda a leitura clínica: comportamentos aparentemente mal adaptativos oferecem ganhos secundários de curto prazo. Ninguém mantém um padrão que não entrega nada. Se o paciente insiste em algo que o afasta do que ele diz querer, a pergunta não é por que ele é incoerente — é o que aquele padrão está entregando a ele agora.

As três motivações mal adaptativas

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  • Aquisição material — a busca por bens como via para obter segurança ou reconhecimento. O objeto não é o ponto; o que ele promete é.
  • Complacência — a adoção dos valores dos outros por medo de rejeição. A pessoa persegue metas que não são dela, e frequentemente as alcança sem sentir nada.
  • “Não se importa” — impulsividade com foco no curto prazo, em que a pergunta sobre consequência simplesmente não é feita.

Os três têm o mesmo denominador: servem para evitar desconforto emocional, em detrimento de valores de vida mais profundos. É a evitação experiencial aparecendo no domínio motivacional (Hayes et al., 1996).

Uma observação de leitura

Note que nenhuma das três é preguiça, falta de força de vontade ou falha de caráter — vocabulário que ainda circula bastante quando se fala de motivação. As três são estratégias, e estratégias se avaliam pela função e pelo custo, não por julgamento moral.

Valores, objetivos, planejamento

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Do lado adaptativo, três elementos encadeados:

Do valor à ação
VALOR“Ser um bom pai”Direção. Não sequantifica, não se concluiOBJETIVO“Duas tardes por semana”Resultado futuro concreto.Mensurável, tem fimPLANEJAMENTO“Sábado, 14h, parque”A ponte. Sem ela, o restofica no plano da intenção
Valores são orientações internas não quantificáveis; objetivos são resultados futuros concretos e mensuráveis; o planejamento é o que coloca em prática.

A confusão entre valor e objetivo é frequente na prática clínica, e não é um preciosismo de vocabulário. Um valor não se cumpre — ele orienta indefinidamente, como uma direção na bússola. Um objetivo se atinge, e depois acaba. Quando o paciente trata o valor como meta, ele vive num teste permanente que nunca passa; quando trata a meta como valor, atinge e não sente nada.

A clareza sobre o que é quantificável é o que permite estabelecer prioridades reais e saber se houve progresso.

O caso Marina: variação, seleção, retenção

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Marina (caso apresentado em aula, desidentificado), psicóloga de 31 anos, tem dificuldade em produzir conteúdo para redes sociais. A leitura foi feita pelos três eixos do metamodelo:

  • Variação — o comportamento aparece marcado por perfeccionismo e evitação: ela prepara, revisa, adia, não publica.
  • Seleção — o que seleciona esse padrão é o alívio imediato da ansiedade. Não publicar resolve o desconforto agora.
  • Retenção — o alívio se repete e o ciclo se mantém, prendendo-a na não exposição.

É o exemplo mais limpo do princípio da seção anterior: o comportamento que a afasta do que ela quer está entregando algo. Enquanto o terapeuta só enxergar procrastinação, vai propor organização de agenda. Enquanto enxergar a função, vai propor exposição e trabalho de valores.

Explorar valores e transformá-los em metas

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Como acessar valores

  • Investigar as pessoas admiradas — quem o paciente admira, e o que exatamente ele admira nelas. Valores costumam aparecer com mais nitidez projetados em outro do que declarados sobre si.
  • Usar listas de valores, como a da DBT (Linehan, 2015), que dão vocabulário a quem não tem.

O exercício serve para o paciente identificar áreas negligenciadas da própria vida — e orienta o tratamento para além da simples redução de sintomas. É um deslocamento de alvo: de “sofrer menos” para “viver o quê”.

De valor a meta

Para tornar o valor concreto, entram as metas SMART — específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e com prazo definido. O ganho não é organizacional: metas específicas aumentam a autoeficácia do paciente (Bandura, 1997; Locke & Latham, 2002), porque criam evidência de que ele consegue.

E é o monitoramento com prática consistente que favorece a retenção dos novos padrões — fechando o ciclo variação, seleção, retenção do lado adaptativo desta vez.

Entrevista Motivacional: a ambivalência como alvo

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A Entrevista Motivacional (Miller & Rollnick, 2013) entra como ferramenta para manejar a ambivalência — não para vencê-la.

A diferença em relação ao questionamento socrático padrão está na pergunta que se faz. Em vez de perguntar o que impede a mudança — pergunta confrontativa, que convida o paciente a defender a permanência —, a EM investiga o que o paciente ganha ao permanecer como está, e a partir daí explora as discrepâncias entre isso e o que ele diz querer.

Os quatro princípios

  • Resistir ao reflexo de consertar — a vontade de corrigir é do terapeuta, não do paciente.
  • Entender as motivações do paciente — as dele, não as que fariam sentido para você.
  • Escutar com empatia.
  • Fortalecer o paciente — devolver a ele a autoria da mudança.

O papel do profissional não é convencer: é colaborar para que a motivação para mudar surja do próprio indivíduo.

O risco iatrogênico
Tentar convencer o paciente do que é correto pode aumentar a ruminação e a intolerância ao sofrimento. E terapeutas que assumem a responsabilidade de forçar a mudança se desgastam à toa e prejudicam a aliança. A responsabilidade pela mudança não é transferível — nem para cima do terapeuta.

Quando aparece resistência

Diante de bloqueio, uma saída é o cenário hipotético: contornar o impasse sem entrar em disputa de poder. Perguntar como seria se, em vez de negociar o que é. O objetivo permanece o mesmo: reorganizar os processos motivacionais para que o comportamento passe a ser guiado por valores, e não por esquiva.

Um exemplo de conduta veio da mediação: num caso de uso de substância com TDAH, a estratégia foi monitoramento e adiamento gradual do consumo, em vez de proibição imediata — lógica de redução de danos (Marlatt, 1996). Isso permitiu trabalhar a motivação sem transformar a sessão em confronto.

Para fechar, uma imagem útil: a metáfora do buquê — reunir e devolver ao paciente as próprias falas de mudança, como quem junta flores que ele mesmo colheu ao longo da conversa.

Levar para a prática
Para revisar — responda

1. Diferencie valor de objetivo com um exemplo de um paciente seu. O que muda na conduta conforme a leitura?

Ver critérios
Não há resposta certa. Uma boa resposta aplica o critério de quantificabilidade: valor é direção, não se cumpre nem se conclui; objetivo é resultado futuro concreto e mensurável, e termina. Sobre a conduta: tratar valor como meta cria um teste permanente que nunca passa; tratar meta como valor faz a pessoa alcançar e não sentir nada. O planejamento é o que liga os dois.

2. Descreva as três motivações mal adaptativas e o que cada uma evita.

Ver comentário
Aquisição material — bens como via para segurança ou reconhecimento. Complacência — adoção dos valores dos outros por medo de rejeição. “Não se importa” — impulsividade com foco no curto prazo, sem a pergunta pela consequência. As três evitam desconforto emocional, em detrimento de valores de vida mais profundos: é evitação experiencial operando no domínio motivacional.

3. Analise um caso seu por variação, seleção e retenção, como no caso Marina.

Ver critérios
Não há resposta certa. Uma boa resposta nomeia a variação (como o comportamento aparece), a seleção (que consequência imediata o torna mais provável — no caso Marina, o alívio da ansiedade ao não publicar) e a retenção (a repetição do alívio, que prende o padrão). O teste de qualidade é o mesmo de sempre: se a seleção não nomeia uma função, ainda é descrição.

4. Por que perguntar “o que te impede de mudar” tende a ser contraproducente?

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Porque é pergunta confrontativa: ela convida o paciente a defender a permanência, produzindo racionalização e barganha. A alternativa da Entrevista Motivacional inverte o foco — investigar o que ele ganha ao permanecer como está — e a partir daí explorar as discrepâncias entre isso e o que ele diz querer. O paciente passa a argumentar pela mudança, em vez de contra ela.

5. Que risco iatrogênico existe em tentar convencer o paciente do que é certo?

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Tentar convencer pode aumentar a ruminação e a intolerância ao sofrimento, além de desgastar a aliança. E há um custo do lado do terapeuta: quem assume a responsabilidade de forçar a mudança se esgota à toa. A responsabilidade pela mudança não é transferível — nem do paciente para o terapeuta, nem o contrário.

6. Escreva uma meta SMART a partir de um valor que um paciente seu declarou.

Ver critérios
Não há resposta certa. Uma boa resposta parte de um valor declarado pelo paciente e produz uma meta específica, mensurável, alcançável, relevante e com prazo — sem transformar o valor em cobrança. Vale lembrar o efeito buscado: metas específicas aumentam a autoeficácia porque criam evidência de que ele consegue, e não apenas organizam a agenda.

7. Lembre de uma sessão em que você caiu no reflexo de consertar. O que faria diferente?

Ver critérios
Não há resposta certa, e a pergunta é pessoal. Uma boa resposta reconhece o momento concreto em que a vontade de corrigir foi do terapeuta, descreve o efeito na sessão — defensividade, silêncio, concordância vazia — e propõe o que faria no lugar: pedir permissão antes de sugerir, devolver a decisão, ou simplesmente escutar mais um pouco.
Salvo neste aparelho

Referências

  1. Bandura, A. (1997). Self-efficacy: The exercise of control. W. H. Freeman.
  2. Deci, E. L., & Ryan, R. M. (2000). The “what” and “why” of goal pursuits: Human needs and the self-determination of behavior. Psychological Inquiry, 11(4), 227–268.
  3. Doran, G. T. (1981). There's a S.M.A.R.T. way to write management's goals and objectives. Management Review, 70(11), 35–36.
  4. Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Ciarrochi, J. (2020). A process-based approach to psychological diagnosis and treatment. Clinical Psychology Review, 82, 101908.
  5. Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and commitment therapy: The process and practice of mindful change (2ª ed.). Guilford Press.
  6. Hayes, S. C., Wilson, K. G., Gifford, E. V., Follette, V. M., & Strosahl, K. (1996). Experiential avoidance and behavioral disorders. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 64(6), 1152–1168.
  7. Kasser, T., & Ryan, R. M. (1996). Further examining the American dream: Differential correlates of intrinsic and extrinsic goals. Personality and Social Psychology Bulletin, 22(3), 280–287.
  8. Linehan, M. M. (2015). DBT skills training manual (2ª ed.). Guilford Press.
  9. Locke, E. A., & Latham, G. P. (2002). Building a practically useful theory of goal setting and task motivation. American Psychologist, 57(9), 705–717.
  10. Lundahl, B. W., Kunz, C., Brownell, C., Tollefson, D., & Burke, B. L. (2010). A meta-analysis of motivational interviewing: Twenty-five years of empirical studies. Research on Social Work Practice, 20(2), 137–160.
  11. Marlatt, G. A. (1996). Harm reduction: Come as you are. Addictive Behaviors, 21(6), 779–788.
  12. Miller, W. R., & Rollnick, S. (2013). Motivational interviewing: Helping people change (3ª ed.). Guilford Press.
  13. Rollnick, S., Miller, W. R., & Butler, C. C. (2008). Motivational interviewing in health care: Helping patients change behavior. Guilford Press.
  14. Wilson, K. G., Sandoz, E. K., Kitchens, J., & Roberts, M. (2010). The Valued Living Questionnaire: Defining and measuring valued action within a behavioral framework. The Psychological Record, 60(2), 249–272.
Nota de métodoO caso “Marina” foi apresentado em aula e está desidentificado; o exemplo de uso de substância com TDAH, trazido na mediação, também. Corrigi artefatos de transcrição: Reis e Hoffman → Hayes e Hofmann; metas Smart → SMART. Os quatro princípios apresentados correspondem ao acrônimo RULE de Rollnick, Miller e Butler (2008) — resistir ao reflexo de consertar, entender as motivações, escutar com empatia e fortalecer o paciente —, referência acrescentada por mim, já que a aula não a nomeou. Os encaminhamentos operacionais do encontro (indicação de capítulo, planejamento de workshop, publicação de referência no grupo) foram omitidos por não integrarem o conteúdo. As demais referências de valores, metas, autoeficácia, entrevista motivacional e redução de danos foram acrescentadas para dar respaldo formal a afirmações feitas em aula sem citação explícita. Nenhuma citação foi construída para preencher lacuna.
Prof. Júlio Gonçalves
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