Uma abordagem em rede
Como transformar a formulação por processos em uma rede viva: ler cada processo por variação/função/retenção, construir as arestas por “se–então”, achar os nós centrais e escolher no máximo dois alvos de intervenção.
- A rede é a formulação viva. Cada paciente tem a sua própria rede de processos (nos nove domínios) — e é nela, não no diagnóstico, que se intervém.
- Para cada processo, três perguntas: o que aparece (variação), para que serve (função/seleção) e o que o mantém (retenção). A função importa mais que a forma.
- As arestas se constroem por “se–então”, formando ciclos de retroalimentação. A rede é hipotética e se valida com o paciente — não existe rede “certa”.
- Nós centrais (geralmente self e comportamento) movem a rede toda; nós amplificadores (atenção e cognição: ruminação, preocupação) intensificam as conexões.
- Do mapa aos alvos: converta problemas em objetivos, escolha no máximo dois (os mais centrais), comece onde o paciente pode mudar e você tem expertise, e re-monitore. Um por vez.
Da teoria à rede: cada paciente, seu próprio mapa
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Depois de duas aulas de fundamentos, esta terceira entra na prática: montar a rede de processos de um caso. O diagnóstico segue útil — para psicoeducação e comunicação —, mas não para ditar um protocolo rígido, porque os processos são dinâmicos, multiníveis e dependentes de contexto (Hofmann & Hayes, 2019).
O mapa de trabalho são os nove domínios do metamodelo evolucionário estendido, que se atravessam formando uma rede:
- Atenção · Cognição · Self — para onde se olha; o que se pensa; como a pessoa se vê.
- Afeto · Comportamento · Motivação — o que se sente; o que se faz; o que move (valores, esquiva).
- Biofisiológico · Contexto · Sociocultura — o corpo; as situações e pessoas; as normas e a cultura.
Cada paciente tem a sua própria rede — dez pessoas com depressão terão dez redes diferentes. É nessa estrutura, e não no rótulo, que se intervém (Hayes, Hofmann & Ciarrochi, 2020; Sanford et al., 2022).
Ler cada processo: o que aparece, para que serve, o que mantém
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Para cada sinal que surge, três perguntas — os eixos da aula anterior:
O que aparece em cada domínio (o sinal/sintoma).
Para que serve — o que alivia, o que evita.
O que o mantém no lugar ao longo do tempo.
No caso de Bill, essa leitura mostra que a mesma queixa se distribui por vários domínios. A atenção fica estreita na memória da perda; a ruminação (cognição) busca uma solução — mas a que ele encontra é sempre a autocrítica (“fui rejeitado, o problema sou eu”); o self se organiza em torno de “sou incapaz/indesejável”; o isolamento (comportamento) evita ativar esse self; a tristeza (afeto) e a letargia (biofisiológico) vêm como consequência e realimentam o ciclo.
O ponto-chave é a função, não a forma. A ruminação dá a sensação de controle (“se eu entender, resolvo”); o isolamento alivia a ansiedade social no curto prazo — e por isso se mantêm, ainda que piorem o quadro no longo prazo (Nolen-Hoeksema, Wisco & Lyubomirsky, 2008). Um sintoma que se tenta só “remover”, sem entender a função, tende a voltar.
Construindo as arestas: a lógica se–então e os ciclos
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Com os processos no mapa, o segundo movimento é ligá-los. Não se olha a tristeza isolada: pergunta-se o que se relaciona com ela — o que a pessoa faz, pensa, como se vê — e, sobretudo, o que gera alívio ou esquiva (os processos de seleção e retenção). As arestas se constroem por uma lógica simples de “se–então”: se me isolo, então a tristeza aumenta; se a tristeza aumenta, então mais isolamento — e o ciclo de retroalimentação se fecha.
No caso de Bill: o término leva ao foco na perda → ruminação → crença “sou incapaz” → isolamento/esquiva (que evita ativar a incapacidade) → o isolamento aumenta tristeza e vazio → mais isolamento → reforça a crença → mais ruminação → o corpo colapsa — e toda a rede se mantém ativa.
Duas ressalvas: a rede é hipotética — construída pelo terapeuta a partir do relato do paciente somado ao conhecimento teórico (“isolamento aumenta tristeza” é relação que a literatura sustenta) — e precisa ser validada com o paciente. Não existe rede “certa” (Borsboom, 2017; Sanford et al., 2022). Descrever o que ocorre e por quê tem, ele próprio, função clínica: tira o peso da culpa, mostrando que o sofrimento é o resultado de um sistema de processos históricos, sociais e fisiológicos — não um defeito da pessoa.
Nós centrais e amplificadores: onde perturbar a rede
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À medida que as arestas se acumulam, aparecem os nós centrais — processos que, se mudarem, movem a rede inteira. Costumam residir no self e no comportamento. E aparecem os nós de amplificação, que aumentam a força das conexões: em geral na atenção e na cognição (ruminação, preocupação, intolerância à incerteza).
Self e comportamento — mexer aqui reverbera na rede toda.
Atenção e cognição — intensificam as conexões.
Afeto e biofisiológico — costumam ser efeito, não partida.
Por isso as intervenções de maior rendimento tendem a residir em self, comportamento, atenção e cognição. Afeto e biofisiológico costumam ser consequência — salvo quando o paciente está muito desregulado: aí se começa pela regulação (ou medicação), porque não há recurso cognitivo para reestruturar nada.
Do problema ao objetivo: no máximo dois alvos
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Os problemas identificados na rede viram objetivos terapêuticos — por exemplo: melhorar o autoconceito, reduzir a fusão cognitiva, reavaliar cognições, melhorar habilidades sociais. Vale apresentar a rede ao paciente e validar se ela explica o funcionamento e o que mantém o sofrimento; a adesão costuma ser alta, porque é como mostrar a ele a própria vida, que ficou anos acontecendo sem nome.
De quatro objetivos possíveis, seleciona-se no máximo dois — os mais centrais, que impactam a maior parte da rede. E um por vez: um contexto, um comportamento, um processo cognitivo. Mudança é lenta, feita de repetição — como aprender a andar de bicicleta. Sobrecarregar o paciente de alvos é receita de estagnação.
Casar objetivos e intervenções: a matriz de pesos
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Escolhidos os objetivos, o passo seguinte é casá-los com intervenções pelo efeito esperado na rede. Um jeito prático é montar uma pequena matriz e atribuir pesos (“+1”, “+2”) a cada cruzamento objetivo × problema e, depois, intervenção × objetivo — pesos que vêm do conhecimento teórico, do repertório de técnicas e da experiência clínica (no começo erra-se bastante, e tudo bem).
No caso de Bill, correr essa conta fez algumas intervenções se destacarem por atingir dois objetivos centrais ao mesmo tempo — a defusão (para o autoconceito e a fusão cognitiva; Hayes, Strosahl & Wilson, 2012) e o treino de habilidades sociais. Outras entram como apoio: reavaliação/reestruturação cognitiva para as crenças de não merecimento; treino de atenção para o foco no término; ativação comportamental para gerar novas aprendizagens.
Depois de escolher, aplica-se e re-monitora-se — agora focando no alvo específico (por exemplo, habilidades sociais), intercalando técnicas (defusão, exposição imaginada, treino, exposição in vivo, análise das interações). A intervenção é mais um ciclo de avaliação: se o alvo não move a rede, troca-se o alvo.
A rede serve para qualquer demanda — instrumentos e o papel da IA
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O método não é só para sofrimento: serve para qualquer comportamento humano, inclusive demandas de performance ou aprimoramento. Basta a mesma curiosidade para nomear o que o paciente traz — investigar o self (“o que te faz pensar que não está indo bem?”), a esquiva, o contexto, a cultura. (Numa demonstração ao vivo, a queixa de “não me sinto competente na profissão” foi mapeada assim: contexto de trabalho → cognição “não tenho técnica suficiente” → self “sou ruim no que faço” → sobrecarga por estudar demais, que realimenta a crença. Exemplo desidentificado.)
Para guiar a investigação, dois instrumentos foram disponibilizados: uma Entrevista Baseada em Processos (desenvolvida por Júlio, com perguntas de variação, seleção e retenção para cada domínio) e um instrumento breve de monitoramento, de respostas simples, para acompanhar se a rede está sendo perturbada — na linha do Process-Based Assessment Tool (Ciarrochi, Sahdra, Hofmann & Hayes, 2022).
Sobre usar IA na formulação
Uma ferramenta de IA pode gerar a análise transdiagnóstica e sugerir alvos — e, no caso de Bill, bateu com a rede feita à mão. Mas o lugar dela é validar hipóteses e gerar ideias, nunca substituir o raciocínio clínico. Como se frisou em aula: a IA não é humana; quem ordena e regula o processo é o terapeuta.
1. Por que a mesma “ruminação” precisa ser lida em vários domínios (atenção, cognição, self) — e o que muda quando olho a função em vez da forma?
2. Como a lógica “se–então” constrói as arestas, e por que a rede é hipotética e precisa ser validada com o paciente?
3. O que distingue nós centrais de nós amplificadores — e por que as intervenções costumam render mais em self, comportamento, atenção e cognição?
4. Por que trabalhar no máximo dois objetivos por vez, e como o casamento objetivo–intervenção ajuda a decidir por onde começar?
Referências
- Hofmann, S. G., & Hayes, S. C. (2019). The future of intervention science: Process-based therapy. Clinical Psychological Science, 7(1), 37–50.
- Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Ciarrochi, J. (2020). A process-based approach to psychological diagnosis and treatment: The conceptual and treatment utility of an extended evolutionary meta-model. Clinical Psychology Review, 82, 101908.
- Borsboom, D. (2017). A network theory of mental disorders. World Psychiatry, 16(1), 5–13.
- Sanford, B. T., Ciarrochi, J., Hofmann, S. G., Gates, K. M., & Hayes, S. C. (2022). Toward empirical process-based case conceptualization: An idionomic network examination of the Process-Based Assessment Tool. Journal of Contextual Behavioral Science, 25, 10–25.
- Ciarrochi, J., Sahdra, B., Hofmann, S. G., & Hayes, S. C. (2022). Developing an item pool to assess processes of change in psychological interventions: The Process-Based Assessment Tool (PBAT). Journal of Contextual Behavioral Science, 23, 200–213.
- Nolen-Hoeksema, S., Wisco, B. E., & Lyubomirsky, S. (2008). Rethinking rumination. Perspectives on Psychological Science, 3(5), 400–424.
- Martell, C. R., Dimidjian, S., & Herman-Dunn, R. (2010). Behavioral Activation for Depression: A Clinician's Guide. New York: Guilford Press.
- Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change (2ª ed.). New York: Guilford Press.
- Hofmann, S. G., Hayes, S. C., & Lorscheid, D. N. (2021). Learning Process-Based Therapy: A Skills Training Manual... Oakland, CA: New Harbinger. [Ed. bras.: Aprendendo a Terapia Baseada em Processos, cap. 3.]

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