Formulação de caso baseada em processos
A formulação de caso como habilidade treinável: da avaliação integral dos domínios à análise de rede, da hierarquização ao plano de tratamento — sempre construída com o paciente, e sempre revisável.
- Formulação de caso é habilidade treinável, não talento — e se apoia nos três pilares da Prática Baseada em Evidências: melhor evidência disponível, expertise clínica, e preferências e cultura do paciente.
- É hipótese, não verdade. Levantada com o paciente, sujeita a ser corroborada ou refutada, e revisada do começo ao fim do tratamento.
- Não é feita sobre o paciente — é feita com ele. Sem devolutiva e sem feedback, vira análise unilateral.
- Avaliar antes de conectar. Primeiro os seis domínios e os dois níveis, depois a lista de processos, só então as setas da rede. Pular para a matriz cedo demais atrapalha mais do que ajuda.
- Sem plano de tratamento, a formulação é só um exercício de rede. O desfecho do paciente é o critério — não a beleza do diagrama.
Uma habilidade treinável, sustentada pela PBE
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A formulação de caso costuma ser tratada como dom: ou o terapeuta “tem o olho”, ou não tem. O encontro parte da premissa oposta — é uma habilidade treinável, que melhora com prática deliberada e se apoia numa estrutura conhecida.
Essa estrutura são os três pilares da Prática Baseada em Evidências (APA, 2006): a melhor evidência disponível, a expertise clínica, e as preferências e a cultura do paciente. Formular é o lugar onde os três se encontram — porque é ali que dados nomotéticos (o que a literatura diz sobre o problema e sobre o que funciona) precisam ser costurados a dados idiográficos (o que se passa com esta pessoa).
Por que o diagnóstico e o protocolo não bastam
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Os tratamentos empiricamente sustentados têm mérito real: descrevem procedimentos com precisão e vêm de estudos controlados. O problema aparece quando a formulação fica amarrada ao diagnóstico e ao manual.
Primeiro porque a clínica não é linear. Existe uma quantidade enorme de manuais, com procedimentos que se repetem entre si, organizados por psicopatologia — e o paciente real chega com várias demandas ao mesmo tempo, o que o manual único não resolve.
Segundo — e mais importante — porque pacientes com o mesmo diagnóstico podem ter processos mantenedores completamente diferentes. Dois quadros de depressão podem se sustentar, num caso, sobre tristeza e retraimento; noutro, sobre pessimismo e ruminação. Aplicar o mesmo protocolo aos dois é tratar o rótulo, não a pessoa.
Há ainda o risco dos modelos puramente descritivos, como certas conceitualizações cognitivas: eles capturam bem um recorte — o cognitivo — mas o paciente não é puramente cognitivo. Quando o modelo só descreve, ele tende à circularização do sofrimento: o pensamento explica o comportamento, que explica o pensamento, e a formulação gira em torno de si mesma sem apontar para lugar nenhum.
A TBP entra aí, e vale a precisão: não é uma nova teoria nem uma nova intervenção. É um metamodelo que reorganiza dados que já existem, para permitir personalização.
O que é uma formulação: hipótese viva, feita com o paciente
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Formular é levantar hipóteses, não estabelecer verdades. Elas podem ser corroboradas ou refutadas, e se organizam em três frentes:
- Causas — ligadas ao histórico do paciente.
- Precipitantes — o que aconteceu antes da demanda aparecer.
- Influências mantenedoras — os processos psicológicos, emocionais, comportamentais e interpessoais que sustentam o quadro agora.
É um processo vivo: funciona como um mapa que guia a tomada de decisão em psicoterapia rumo a um plano individualizado. E é o ponto onde se unem coisas que costumam andar separadas — diagnóstico (ou sintomatologia) e demanda; teoria e prática; ciência e a arte da relação, o feeling clínico.
Suas funções, na prática: organizar informação, guiar o trabalho, planejar o tratamento e fortalecer a relação terapêutica — porque uma compreensão ampla dos processos, devolvida ao paciente, valida a experiência dele.
Passo 1 — avaliação integral dos domínios e níveis
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O primeiro passo é o menos glamouroso e o mais decisivo: avaliar tudo antes de concluir qualquer coisa. Os seis domínios — cognição, afeto, atenção, self, motivação e comportamento — atravessados pelos dois níveis, biofisiológico e sociocultural.
A avaliação integral existe para evitar dois defeitos previsíveis: omissão (o domínio que você nunca investiga porque não é da sua abordagem) e viés (encontrar em todo paciente aquilo que você já esperava encontrar). Ela se faz por entrevista clínica com perguntas específicas por domínio, observação em sessão, exame do estado mental e instrumentos padronizados.
Para cada processo identificado, três perguntas do metamodelo:
- Variação — como esse comportamento varia? (o dado mais descritivo)
- Seleção — para que ele serve? qual a função?
- Retenção — como isso se manteve, e se manteve interligado, ao longo do tempo?
Não são etapas sequenciais: transitam simultaneamente durante a sessão. E o contexto não é pano de fundo — é variável ativa, tanto na formulação quanto na decisão clínica.
Passo 2 — da lista à rede: conectar e hierarquizar
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Na TBP, dois formatos convivem. A tabela do metamodelo evolucionário estendido, funcional, lista os processos mal adaptativos ao lado dos recursos e processos preservados. A matriz organiza os domínios em quadrantes e recebe as setas da análise de rede.
A recomendação prática do encontro — e Júlio concordou, na discussão — é listar antes de conectar. Montar a matriz cedo demais, sem ter as variáveis nomeadas, atrapalha o aprendizado e a precisão. Primeiro a lista; depois as setas.
Ao organizar, limite o número de processos — dez, no exemplo trabalhado. Rede com processo demais não hierarquiza nada.
Para traçar as conexões, o instrumento principal é o autorrelato: perguntar ao paciente pelas relações causais que você está supondo. “Quando você pensa que é uma perdedora, o que costuma fazer em seguida?” O paciente pode responder com incerteza, e tudo bem — a rede é hipotética por natureza, e testá-la faz parte.
O passo seguinte é o fortalecimento da rede, feito em colaboração: identificar quais processos são mais centrais, e daí derivar a hierarquia do tratamento.
O caso Maria, do começo ao fim
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Maria, 28 anos (caso didático), sente ansiedade e insegurança ao interagir socialmente, com preocupação de ser chata ou passar vergonha. O diagnóstico de transtorno de ansiedade social até caberia — e é exatamente onde a formulação começa, não onde ela termina.
A microanálise
O primeiro laço aparece entre cognição e afeto: a insegurança e a ansiedade intensificam a preocupação de ser chata, que por sua vez realimenta a insegurança e a ansiedade. Descrito assim, porém, o modelo já ameaça circularizar. É por isso que a investigação precisa varrer os demais domínios:
- Biofisiológico — aperto no estômago, taquicardia, sudorese, diretamente atrelados à insegurança e à ansiedade.
- Comportamento — dois padrões opostos que sustentam o mesmo ciclo: supercompensação (tentar ser engraçada, agradável) em alguns contextos, e evitação em outros (ficar em casa, não se expor a estranhos ou a figuras de autoridade).
- Atenção — pensamentos de “vou me constranger” quase todos os dias, sobretudo antes de conversas com estranhos: ruminação e preocupação antecipatória.
- Self — conteúdos conceituados e rígidos: “sou chata”, “sou inconveniente”.
- Motivação — o domínio que ficou menos claro na análise inicial, provavelmente ligado ao alívio temporário que se segue à evitação.
O que a rede mostrou
Fortalecida a rede, dois aspectos mal adaptativos se destacaram: a rigidez dos conteúdos de cognição e self, e a evitação comportamental — em contraste com o excesso comportamental de agradar. A hierarquia de tratamento apontou para a conexão entre cognição, comportamento e afeto.
Do processo ao procedimento
Com a hierarquia definida, o plano vira tabela: dimensão, processo mal adaptativo, processo adaptativo desejado, procedimento empiricamente sustentado. No caso de Maria, a alta sensibilidade à ansiedade poderia ser trabalhada no sentido de maior aceitação, por meio de exposições interoceptivas (Smits, Berry, Tart & Powers, 2008).
Passo 3 — o plano, e a flexibilidade dentro da fidelidade
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O plano pode se alinhar a tratamentos empiricamente sustentados — exposição, aceitação, reestruturação —, mas aplicados com individualização. A TBP trabalha com núcleos de tratamento comportamentais, contextuais e cognitivos, o que permite um ecletismo técnico modular: entra a técnica que serve àquele processo, venha ela da DBT, da ACT ou da TCC.
Foi aqui que Júlio amarrou o tema a um conceito central da PBE: flexibilidade dentro da fidelidade (Kendall & Beidas, 2007; Kendall, Gosch, Furr & Sood, 2008). A fidelidade a protocolos nomotéticos frequentemente não se adequa à clínica viva, onde os pacientes chegam com múltiplas demandas. A formulação de caso é justamente o que permite os deslocamentos — o olhar idiográfico que acomoda as comorbidades sem abandonar o que a evidência sustenta.
Mensuração como validação da hipótese
A hierarquização se faz com o paciente, usando feedback e mensuração. E aqui há uma função da medida que costuma passar batida: ela não serve só para monitorar o tratamento — serve para validar ou invalidar as relações causais que a formulação supôs. É o encontro anterior devolvendo utilidade a este.
Sobre a curva de aprendizagem
Construir a primeira rede é hipotético e cansativo — não é sinal de que você está fazendo errado. Espera-se que as análises iniciais sejam incompletas: é a incompletude que mostra o que ainda falta perguntar, e permite ir construindo modelos progressivamente mais complexos. Passada a parte grossa do trabalho, os ajustes seguintes tendem a ser mínimos, e o ganho de clareza compensa o esforço inicial.
1. Quais são os três pilares da PBE, e onde exatamente a formulação de caso os articula?
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2. Por que amarrar a formulação ao diagnóstico é insuficiente? Dê um exemplo de dois pacientes com o mesmo diagnóstico e processos mantenedores diferentes.
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3. O que é a circularização do sofrimento, e como a avaliação integral ajuda a evitá-la?
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4. Explique variação, seleção e retenção com um processo de um caso seu.
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5. Por que listar os processos antes de montar a matriz? O que se perde ao inverter a ordem?
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6. O que significa “flexibilidade dentro da fidelidade”, e qual o papel da formulação de caso nisso?
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7. Como a mensuração pode invalidar uma hipótese da sua formulação? Descreva um caso em que isso mudaria a sua conduta.
Ver critérios
Referências
- APA Presidential Task Force on Evidence-Based Practice. (2006). Evidence-based practice in psychology. American Psychologist, 61(4), 271–285.
- Borsboom, D. (2017). A network theory of mental disorders. World Psychiatry, 16(1), 5–13.
- Ciarrochi, J., Sahdra, B., Hofmann, S. G., & Hayes, S. C. (2022). Developing an item pool to assess processes of change in psychological interventions: The Process-Based Assessment Tool (PBAT). Journal of Contextual Behavioral Science, 23, 200–213.
- Eells, T. D. (Org.). (2007). Handbook of psychotherapy case formulation (2ª ed.). New York: Guilford Press.
- Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Ciarrochi, J. (2020). A process-based approach to psychological diagnosis and treatment: The conceptual and treatment utility of an extended evolutionary meta-model. Clinical Psychology Review, 82, 101908.
- Hofmann, S. G., Curtiss, J., & McNally, R. J. (2016). A complex network perspective on clinical science. Perspectives on Psychological Science, 11(5), 597–605.
- Hofmann, S. G., & Hayes, S. C. (2019). The future of intervention science: Process-based therapy. Clinical Psychological Science, 7(1), 37–50.
- Kendall, P. C., & Beidas, R. S. (2007). Smoothing the trail for dissemination of evidence-based practices for youth: Flexibility within fidelity. Professional Psychology: Research and Practice, 38(1), 13–20.
- Kendall, P. C., Gosch, E., Furr, J. M., & Sood, E. (2008). Flexibility within fidelity. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 47(9), 987–993.
- Kuyken, W., Padesky, C. A., & Dudley, R. (2009). Collaborative case conceptualization: Working effectively with clients in cognitive-behavioral therapy. New York: Guilford Press.
- Persons, J. B. (2008). The case formulation approach to cognitive-behavior therapy. New York: Guilford Press.
- Smits, J. A. J., Berry, A. C., Tart, C. D., & Powers, M. B. (2008). The efficacy of cognitive-behavioral interventions for reducing anxiety sensitivity: A meta-analytic review. Behaviour Research and Therapy, 46(9), 1047–1054.

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