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Jornada da Leitura
Resumo de aula · Jornada da Leitura

Processos atencionais

Capítulo 6
07/04/2026 · Apresentação de Profa. Giovana Coghetto Sganzerla · Mediação de Prof. Júlio Gonçalves · Hofmann, Hayes & Lorscheid — Aprendendo a Terapia Baseada em Processos, cap. 6

O primeiro domínio da parte clínica, e o mais esquecido. Como a atenção organiza a experiência, que componentes a compõem, e por que flexibilizar o foco costuma vir antes de tentar reduzir o sintoma.

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O essencial
  • Aquilo a que se atende ganha peso. A atenção organiza a experiência e influencia emoção, cognição e comportamento — e é influenciada de volta por eles.
  • Três componentes: direcionamento (para onde), sustentação (por quanto tempo) e flexibilidade (capacidade de mudar o foco). A flexibilidade é a que mais aparece nas dificuldades clínicas.
  • A TBP muda a pergunta de “o que o paciente tem” para “o que está acontecendo” — e a atenção deixa de ser viés para virar processo treinável.
  • O foco preso amplifica. No caso trabalhado, a atenção presa à dor alimenta ruminação, medo e restrição, que aumentam o monitoramento corporal e fecham o ciclo.
  • A prioridade é flexibilizar, não eliminar. Intervém-se nos processos que mantêm o sistema funcionando, não diretamente na redução do sintoma.

O domínio que a clínica esquece

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Os encontros anteriores trataram das críticas à ciência psicológica, do modelo de rede e da formulação e mensuração baseadas em processos. Este abre a parte clínica da jornada — e começa exatamente pelo domínio que costuma ficar de fora: os processos básicos, atenção e memória.

A observação que abre a aula vem da experiência de ensinar processos básicos e depois reencontrá-los no consultório: a perspectiva clínica desses processos se encaixa com precisão na prática, e não abordá-los limita a clínica. Eles são, entre outras coisas, cruciais para a construção das emoções.

Onde a atenção fica na matriz
Nos modelos contextuais, atenção, afeto e biofisiológico aparecem como os componentes mais fundamentais do comportamento humano. E há demandas em que a atenção se apresenta sistematicamente mais rígida — transtornos somáticos e de ansiedade entre elas —, o que torna a intervenção atencional quase incontornável.

A atenção organiza a experiência

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A aula abriu com uma frase de consultório: “eu não consigo parar de pensar nisso”. É um relato de atenção, antes de ser um relato de conteúdo.

O princípio é econômico e tem consequência clínica direta: aquilo a que se atende ganha mais peso. O que entra no foco influencia emoção, cognição e comportamento — e é, ao mesmo tempo, influenciado pelos outros processos cognitivos. Não é uma via de mão única.

Dois pontos aprofundaram isso na discussão. Primeiro: a atenção é o processo que permanece mais ativo, o primeiro plano da consciência, presente inclusive nas respostas a estímulos inatos do recém-nascido, antes que as emoções emerjam. Segundo: a percepção é a porta de entrada da cognição, mas é o direcionamento da atenção que decide o que será memorizado e o que se tornará marcante — e é aí que a experiência psicológica se organiza.

De recurso limitado a processo treinável

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Uma retrospectiva curta ajuda a entender o deslocamento:

  • Psicologia cognitiva clássica — a atenção como recurso limitado, a ser alocado (Kahneman, 1973).
  • Neurociência cognitiva — a atenção como redes atencionais, com sistemas distintos de alerta, orientação e controle executivo (Posner & Petersen, 1990; Petersen & Posner, 2012).
  • TCC tradicional — a atenção ligada a vieses, sobretudo o viés atencional para a ameaça (Beck & Clark, 1997; Bar-Haim et al., 2007).
  • TBP — a atenção como processo treinável e funcional.

A mudança de paradigma é a mesma que atravessa toda a jornada: sai o “o que o paciente tem”, entra o “o que está acontecendo”. A avaliação fica mais dinâmica e contextual — e passa a tratar de algo modificável.

Componentes e estilos atencionais

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Os processos atencionais regulam para onde, como e por quanto tempo a atenção se mantém. Três componentes:

  • Direcionamento — a seleção do estímulo.
  • Sustentação — a retenção do foco ao longo do tempo.
  • Flexibilidade — a capacidade de mudar o foco. É o componente mais frequentemente implicado nas dificuldades clínicas.

A modulação desses componentes produz estilos, mais ou menos adaptativos:

  • Atenção rígida — presa a um aspecto, com dificuldade de variação.
  • Foco disperso — dificuldade de sustentar a atenção.
  • Atenção excessiva ao passado ou ao futuro — o terreno da ruminação e da preocupação.

O impacto clínico dos estilos desadaptativos é duplo: amplificam o sofrimento e reduzem a flexibilidade. Do outro lado, o estilo adaptativo é descrito como mindfulness — aqui entendido de forma bem operacional, como atenção flexível e agir com consciência, e não como prática contemplativa (Bishop et al., 2004; Baer et al., 2006). É esse o alvo das intervenções.

O caso Maia: o looping atencional

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Maia (caso clínico usado como fio condutor da aula, desidentificado) é uma adulta com dor crônica após um acidente de trabalho. Ela restringe atividades e evita o trabalho por medo da dor. Sente raiva e preocupação com o futuro e com o passado — inclusive pela injustiça de ter avisado as chefias sobre o perigo no local onde o acidente aconteceu.

A leitura por processos começa pelo que sustenta o quadro, não pelo diagnóstico. A dor é um estímulo saliente, e a atenção vai para ela: monitoramento constante do corpo. Do foco preso vêm ruminação, irritação e preocupação — pensamentos repetitivos sobre a dor, sobre o acidente, sobre o “e se piorar”. Ruminação e preocupação restringem as atividades; a restrição e o medo (de piora, de nova lesão, de incapacidade) aumentam o monitoramento corporal; o monitoramento amplifica a percepção da dor; e a dor amplificada realimenta a ruminação.

O ciclo de manutenção
DOR SALIENTECaptura o foco deforma automáticaMONITORAMENTOChecagem constantedo corpoRUMINAÇÃOPassado, futuro,injustiça, “e se piorar”MEDO E RESTRIÇÃOEvita atividade —e volta a monitorara atenção amplifica o que ela monitora
A atenção à dor não depende só do estímulo: ela é sustentada por medo, evitação, restrição, ruminação, preocupação e pelos sentimentos de injustiça e raiva.

É um sistema disfuncional, não um sintoma isolado — e é sobre ele que a TBP intervém. O alvo são os processos que mantêm o sistema funcionando, e não a redução direta do sintoma.

Intervir: flexibilizar antes de reduzir

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A intenção das intervenções atencionais é promover uma atenção mais flexível e ampliada, evitando que o foco se torne exclusivo. No caso de Maia, trabalhar a flexibilidade é prioridade: ajudá-la a alternar focos, retomar outras atividades e, por consequência, melhorar a autorregulação e reduzir o sofrimento.

Repare na ordem: não se trata de convencer a paciente de que a dor é menor, nem de eliminar o monitoramento por decreto. Trata-se de devolver mobilidade ao foco, e deixar que a redução do sofrimento venha disso.

Primeira e segunda flecha

A imagem usada foi a das duas flechas, da tradição budista. A primeira flecha é o estímulo doloroso em si. A segunda é o que se acrescenta a ele: ruminação, preocupação, catastrofização. Estudos sobre aceitação da dor indicam que a redução da experiência de dor vem menos da eliminação do estímulo e mais da diminuição desses processos reativos (McCracken & Eccleston, 2003).

Uma precisão que vale a pena

A literatura de aceitação em dor crônica é mais robusta para funcionamento, incapacidade e sofrimento do que para redução da intensidade da dor. Dizer ao paciente que aceitar vai diminuir a dor é uma promessa arriscada; dizer que vai diminuir o quanto a dor domina a vida dele é mais fiel ao que a evidência sustenta.

Nem todo foco na dor é o mesmo foco

Um contraponto interessante apareceu na discussão: focar na dor durante o exercício físico, tratando-a como processo fisiológico e sem julgamento, pode aumentar a tolerância e prolongar o movimento — o oposto do que faz a ruminação. E a prática longa de atenção plena, como a de praticantes experientes de meditação, associa-se a menor percepção de dor, com mais flexibilidade atencional e aceitação (Grant & Rainville, 2009; Zeidan et al., 2011).

A lição clínica não é “focar é bom” ou “focar é ruim”. É que a função do foco muda tudo — o mesmo direcionamento atencional pode servir à aceitação ou à catastrofização, dependendo do que ele está fazendo naquele contexto.

Modular pelo caso, não pelo protocolo

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A aula focou em intervenções atencionais no contexto da dor crônica, mas o alerta veio explícito: outras situações e estímulos pedem intervenções que vão além da atenção. Em contextos neurodivergentes, por exemplo, entram estratégias compensatórias que não se resumem a flexibilizar foco.

A intervenção é sempre modulada pela formulação do caso, nunca por protocolo rígido. O que se pode dizer com segurança é que os processos atencionais aparecem como necessários com frequência em pacientes com alta ruminação e preocupação — o que liga este encontro diretamente ao dos processos cognitivos.

O fecho: terapia como aprendizagem
A comparação que encerrou o encontro foi com aprender a andar de bicicleta: um processo que exige a integração contínua de vários processos — atenção, cognição, comportamento — até que funcionem juntos sem esforço deliberado. O objetivo final não é treinar cada peça isoladamente, e sim que o paciente integre as partes e consiga viver de forma próspera.
Levar para a prática
Para revisar — responda

1. Quais são os três componentes atencionais? Qual costuma aparecer mais nas dificuldades clínicas, e por quê?

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Direcionamento (para onde a atenção vai), sustentação (por quanto tempo se mantém) e flexibilidade (capacidade de mudar o foco). A flexibilidade é a que mais aparece nas dificuldades clínicas porque é ela que falha em ruminação, preocupação e monitoramento sintomático — quadros em que o foco não está ausente, está preso.

2. O que muda quando a atenção deixa de ser lida como viés e passa a ser lida como processo treinável?

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Viés é característica a ser corrigida e pertence ao paciente; processo treinável é algo modificável, que se avalia pela função e se trabalha diretamente. A pergunta deixa de ser “o que ele tem” e passa a ser “o que está acontecendo”, o que torna a avaliação mais dinâmica e contextual — e transforma a atenção em alvo de intervenção, e não em explicação do fracasso das outras.

3. Descreva o ciclo de manutenção do caso Maia, nomeando o que sustenta o foco além da própria dor.

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A dor é estímulo saliente e captura o foco; disso vem monitoramento corporal constante; do foco preso vêm ruminação e preocupação; estas levam à restrição de atividades; a restrição e o medo de piora aumentam o monitoramento; o monitoramento amplifica a percepção da dor. Além do estímulo, sustentam o ciclo o medo, a evitação, a restrição e os sentimentos de injustiça e raiva.

4. Por que a prioridade é flexibilizar o foco em vez de reduzir o sintoma diretamente?

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Porque o foco não depende só do estímulo: ele é mantido por medo, evitação e ruminação, e é a imobilidade do foco que amplifica a percepção. Devolver mobilidade permite que a pessoa retome outras atividades e melhore a autorregulação, e a redução do sofrimento vem disso. Atacar o sintoma diretamente, além de frequentemente inviável, deixa intacto o sistema que o sustenta.

5. Explique primeira e segunda flecha com um caso seu que não seja de dor física.

Ver critérios
Não há resposta certa. Uma boa resposta separa o estímulo inicial — a primeira flecha, que pode ser uma crítica recebida, uma perda, uma falha — do que se acrescenta a ele: ruminação, preocupação, catastrofização e autocrítica. E reconhece que o trabalho clínico incide sobretudo na segunda, porque é ela que prolonga e amplifica o que a primeira já fez.

6. Como o mesmo direcionamento atencional pode servir à aceitação num contexto e à catastrofização em outro?

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Porque o que decide não é para onde a atenção aponta, mas o que aquele direcionamento está fazendo naquele contexto. Focar na sensação durante um esforço físico, tratando-a como processo fisiológico e sem julgamento, pode ampliar a tolerância; focar na mesma sensação em casa, com catastrofização, amplifica o sofrimento. Mesma operação atencional, funções opostas.

7. Pense num paciente seu com atenção rígida: que primeiro passo de flexibilização você proporia, e como saberia se funcionou?

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Não há resposta certa. Uma boa resposta escolhe um passo pequeno e possível — alternar foco por um intervalo curto, retomar uma atividade concorrente — em vez de propor eliminar o monitoramento. E define antes como saberá se funcionou: não pela redução do sintoma, mas por indicadores de mobilidade do foco e de retomada de atividades.
Salvo neste aparelho

Referências

  1. Baer, R. A., Smith, G. T., Hopkins, J., Krietemeyer, J., & Toney, L. (2006). Using self-report assessment methods to explore facets of mindfulness. Assessment, 13(1), 27–45.
  2. Bar-Haim, Y., Lamy, D., Pergamin, L., Bakermans-Kranenburg, M. J., & van IJzendoorn, M. H. (2007). Threat-related attentional bias in anxious and nonanxious individuals: A meta-analytic study. Psychological Bulletin, 133(1), 1–24.
  3. Beck, A. T., & Clark, D. A. (1997). An information processing model of anxiety: Automatic and strategic processes. Behaviour Research and Therapy, 35(1), 49–58.
  4. Bishop, S. R., Lau, M., Shapiro, S., Carlson, L., Anderson, N. D., Carmody, J., et al. (2004). Mindfulness: A proposed operational definition. Clinical Psychology: Science and Practice, 11(3), 230–241.
  5. Crombez, G., Eccleston, C., Van Damme, S., Vlaeyen, J. W. S., & Karoly, P. (2012). Fear-avoidance model of chronic pain: The next generation. Clinical Journal of Pain, 28(6), 475–483.
  6. Eccleston, C., & Crombez, G. (1999). Pain demands attention: A cognitive-affective model of the interruptive function of pain. Psychological Bulletin, 125(3), 356–366.
  7. Grant, J. A., & Rainville, P. (2009). Pain sensitivity and analgesic effects of mindful states in Zen meditators. Psychosomatic Medicine, 71(1), 106–114.
  8. Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Ciarrochi, J. (2020). A process-based approach to psychological diagnosis and treatment. Clinical Psychology Review, 82, 101908.
  9. Kahneman, D. (1973). Attention and effort. Prentice-Hall.
  10. McCracken, L. M., & Eccleston, C. (2003). Coping or acceptance: What to do about chronic pain? Pain, 105(1–2), 197–204.
  11. Nolen-Hoeksema, S., Wisco, B. E., & Lyubomirsky, S. (2008). Rethinking rumination. Perspectives on Psychological Science, 3(5), 400–424.
  12. Petersen, S. E., & Posner, M. I. (2012). The attention system of the human brain: 20 years after. Annual Review of Neuroscience, 35, 73–89.
  13. Posner, M. I., & Petersen, S. E. (1990). The attention system of the human brain. Annual Review of Neuroscience, 13, 25–42.
  14. Sullivan, M. J. L., Bishop, S. R., & Pivik, J. (1995). The Pain Catastrophizing Scale: Development and validation. Psychological Assessment, 7(4), 524–532.
  15. Vlaeyen, J. W. S., & Linton, S. J. (2000). Fear-avoidance and its consequences in chronic musculoskeletal pain: A state of the art. Pain, 85(3), 317–332.
  16. Wells, A. (2009). Metacognitive therapy for anxiety and depression. Guilford Press.
  17. Zeidan, F., Martucci, K. T., Kraft, R. A., Gordon, N. S., McHaffie, J. G., & Coghill, R. C. (2011). Brain mechanisms supporting the modulation of pain by mindfulness meditation. Journal of Neuroscience, 31(14), 5540–5548.
Nota de métodoO caso “Maia” foi apresentado em aula como caso clínico e está aqui desidentificado. Duas moderações empíricas foram acrescentadas ao que a aula afirmou. Primeira: a evidência sobre aceitação em dor crônica sustenta com mais firmeza ganhos em funcionamento, incapacidade e sofrimento do que redução da intensidade da dor — a formulação foi ajustada nesse sentido. Segunda: a afirmação de que focar na dor durante o exercício aumenta a tolerância vem da literatura sobre foco associativo versus dissociativo em esforço físico, onde os achados são mistos e dependentes de tarefa e intensidade; o texto mantém o ponto como discutido em aula, mas sem citação atribuída, porque a fonte não foi identificada e a evidência não é unívoca. A definição operacional de mindfulness usada em aula (atenção flexível e agir com consciência) foi ancorada em Bishop et al. (2004) e Baer et al. (2006); as demais referências de redes atencionais, viés atencional, dor e medo-evitação foram acrescentadas para dar respaldo formal a afirmações feitas sem citação explícita. Nenhuma citação foi construída para preencher lacuna.
Prof. Júlio Gonçalves
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