Processos cognitivos
Duas classes de estratégia cognitiva — engajar e controlar —, os processos que as mantêm, e por que a pergunta clínica decisiva é para que serve o pensamento, não o que ele diz.
- Conteúdo é o que o pensamento diz; função é para que ele serve. A intervenção muda conforme a resposta — e a função é o que a TBP prioriza.
- Duas classes de estratégia cognitiva: engajamento (preocupação, ruminação — “vamos resolver isso”) e controle (supressão, distração, neutralização — “como eu me afasto disso”).
- As duas se mantêm por reforçamento negativo: aliviam no curto prazo e cobram no longo. E são sustentadas por crenças metacognitivas — positivas e negativas.
- Tentar não pensar aumenta o pensar. Supressão e neutralização falham por desenho, e a falha repetida ensina ao paciente que aquele pensamento é importante.
- Resolver problema não é se preocupar. Resolver envolve encarar a incerteza e marcar data de revisão; preocupar-se cria urgência de eliminá-la.
Onde os processos cognitivos entram — e quando não entram
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Este é o sétimo encontro da jornada. Os anteriores cobriram a fundamentação da TBP, o modelo de rede, a formulação, a mensuração e os processos atencionais. Os processos cognitivos são o segundo domínio de avaliação e intervenção nessa sequência.
E aqui vem a ressalva que vale para o restante da trilha: os domínios se apresentam em ordem, mas a clínica não é linear. A abordagem é modular — um domínio só é priorizado se for central na rede daquele paciente. Cognição e self tendem a aparecer como centrais na prática, mas “tende” não é “sempre”, e quem decide é a formulação, não o programa do curso.
Conteúdo e função: a distinção que organiza tudo
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Antes de qualquer intervenção, sedimentar a diferença. A imagem usada em aula: o pensamento é um presente dentro de uma caixa.
- Conteúdo — o que está dentro da caixa. “Vou perder o emprego.” É o foco do trabalho mais cognitivista, e a intervenção típica é a reestruturação cognitiva, que trabalha a forma como o paciente avalia a probabilidade dos eventos, buscando um pensamento mais flexível.
- Função — por que se dá o presente. Para que serve aquele pensamento? Ele ajuda o paciente a buscar solução? A adiar uma decisão? A se sentir responsável? A função é majoritariamente de reforçamento.
No viés do conteúdo estão os três níveis clássicos de cognição — pensamentos automáticos, crenças intermediárias (regras e pressupostos) e crenças centrais (ideias absolutistas sobre si, os outros e o mundo). Todos são processos cognitivos, e trabalhá-los é legítimo. A questão é que, sozinho, o trabalho de conteúdo frequentemente não sustenta mudança de longo prazo.
Daí a organização da aula em duas classes de estratégia, definidas pela função:
- Estratégias de engajamento — tentar analisar ou processar o pensamento. Modo enfrentativo: “vamos resolver”. Preocupação e ruminação.
- Estratégias de controle — reduzir, eliminar ou modificar o pensamento. Modo esquivo: “como eu me afasto”. Supressão, evitação cognitiva, distração, neutralização.
Engajamento (1): a preocupação
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A preocupação é um processo transdiagnóstico: uma cadeia de pensamentos predominantemente verbais, orientados para o futuro, focados em ameaças possíveis e em tentativas de resolver problemas incertos (Borkovec et al., 1983; Ehring & Watkins, 2008).
Como ela aparece na clínica
Nem sempre pelo relato. Pacientes negam ser preocupados e descrevem uma rotina que é preocupação pura: pensar o tempo todo na próxima tarefa, executá-la com perfeição, emendar na seguinte. Outras manifestações incluem procrastinação, abuso de substância, uso excessivo de telas — e o reasseguramento, a busca de respostas em terceiros, que é das reações mais comuns.
O que medir
Duas perguntas diferentes, dois instrumentos:
- Quanto ele se preocupa — o PSWQ, Questionário de Preocupação da Pensilvânia (Meyer, Miller, Metzger & Borkovec, 1990).
- Por que ele se preocupa — o WW-II (Why Worry-II; Gosselin et al., 2003), que mapeia as crenças positivas sobre a preocupação: que ela facilita a resolução de problemas, motiva, protege de emoções negativas, previne desfechos ruins, ou reflete um traço positivo de personalidade.
O segundo é o que interessa à leitura por processos: ele responde pela função.
Engajamento (2): a ruminação, e o convite ao terapeuta
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A ruminação é o outro pensamento repetitivo e prolongado, geralmente voltado a problemas passados e aos sentimentos associados a eles — análogo ao que fazem os animais ruminantes, que trazem de volta o que já foi processado (Nolen-Hoeksema, 1991; Nolen-Hoeksema, Wisco & Lyubomirsky, 2008).
Quem rumina também sustenta crenças positivas sobre o processo: pensar mais evita erros, pensar mais leva a decisões mais acertadas. É achado frequente em pacientes deprimidos, onde funciona como processo de manutenção do quadro.
Cuidado clínico
O paciente que rumina convida o terapeuta a ruminar junto. É um convite legítimo na aparência: revisar mais uma vez o que aconteceu, examinar de novo o mesmo episódio. Aceitar o convite mantém o ciclo e a angústia. O mesmo vale para a preocupação: não se preocupe junto com o paciente.
Metacognição: as crenças sobre o próprio pensar
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Metacognição é o conhecimento e as crenças que a pessoa tem sobre o monitoramento e o controle do próprio pensamento (Wells, 2009). A história de vida ativa crenças prévias que influenciam a execução das atividades cognitivas — inclusive a preocupação.
- Crenças metacognitivas positivas — as vantagens de se preocupar ou ruminar.
- Crenças metacognitivas negativas — a falta de controle sobre os pensamentos, e o perigo deles.
A crença de incontrolabilidade merece atenção precoce: enquanto o paciente acreditar que não consegue parar, ele não tenta desengajar. Reestruturá-la cedo é o que abre espaço para todo o resto.
Desengajar, em vez de discutir o conteúdo
Para muitos pacientes, o movimento mais útil não é examinar o conteúdo do pensamento — é sair dele. Entram aqui recursos como o grounding e o redirecionamento atencional (que conversam diretamente com o encontro sobre processos atencionais), a reestruturação metacognitiva e a desfusão.
Intolerância à incerteza e resolução de problemas
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A intolerância à incerteza é processo central na ansiedade: a busca por previsibilidade e controle, com a dúvida sendo tratada como sinônimo de perigo (Dugas, Gagnon, Ladouceur & Freeston, 1998; Carleton, 2016). Pacientes com alta intolerância recorrem a evitação e reasseguramento — e cada rodada disso reduz ainda mais a tolerância à incerteza ao longo do tempo.
Resolução de problemas, feita direito
A resolução de problemas é intervenção básica da TCC, mas com paciente preocupado ou ruminativo ela precisa ser estruturada considerando a incerteza:
- Brainstorm com adiamento de julgamento — gerar alternativas antes de avaliar qualquer uma.
- Escolher a solução “não perfeita” — porque nenhuma decisão elimina todas as incertezas, e esperar pela que elimina é a própria armadilha.
- Definir marcadores e uma data de revisão — a etapa que costuma ser esquecida, e a mais importante: é o que impede o paciente de voltar à decisão a cada dúvida e reabrir a checagem.
Um exemplo de intervenção que virou o problema
Foi relatada uma experiência clínica com a “famosa balança cognitiva” — a lista de prós e contras. Com um paciente de alta intolerância à incerteza, ele passou a pedir para refazer a balança a cada sessão. O exercício tinha virado fonte de reasseguramento. Identificado que o processo central era a intolerância à incerteza, a conduta adequada passou a ser manter a firmeza em não repetir o exercício.
Vale o aprendizado geral: uma técnica bem escolhida para o conteúdo pode alimentar o processo. Quem decide se ela serve é a função que ela cumpre naquele caso.
Controle: supressão, distração, neutralização — e a exposição
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As estratégias de controle são tentativas de controlar processos mentais e evitar pensamentos indesejados. Costumam vir acompanhadas da crença de que o pensamento é perigoso ou incontrolável, o que leva à evitação do assunto.
- Distração — o uso excessivo do celular como forma de não pensar em algo desconfortável é o exemplo cotidiano de evitação não terapêutica.
- Supressão — tentar não pensar. É o exercício do urso branco (Wegner et al., 1987): tentar não pensar no urso branco volta a atenção exatamente para ele. A tentativa falha, a falha se repete, e a repetição ensina que aquele pensamento deve ser importante. Vale igualmente para sentimentos — tentar não sentir intensifica a atenção sobre o que se sente.
- Neutralização — compensar um pensamento ruim com um pensamento bom. Comum no TOC (Salkovskis, 1985; Rachman, 1997), mas não exclusivo dele.
O que não fazer em sessão
Na evitação cognitiva mais ampla, o paciente usa frases como “vai dar tudo certo” para encerrar a conversa e sair do tema. O terapeuta não deve reforçar essa estratégia — e concordar com a frase, ou mudar de assunto junto, é reforçá-la.
A exposição como remédio
O remédio para a evitação é a exposição. Na clínica, ela aparece em duas formas:
- Exposição informal — encorajar o paciente a explorar e entrar em contato com o assunto ali, na sessão, em vez de deixá-lo escapar; e testes comportamentais.
- Exposição formal — sistemática, repetida e prolongada aos eventos cognitivos evitados, incluindo preocupações e imagens (Bennett-Levy et al., 2004).
1. Explique conteúdo e função com um pensamento de um paciente seu. Que intervenção cada leitura sugeriria?
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2. Qual a diferença entre estratégias de engajamento e de controle? Dê um exemplo clínico de cada.
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3. Descreva o ciclo de reforçamento da preocupação, do disparador até a crença negativa.
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4. Por que a supressão falha? O que a falha repetida ensina ao paciente?
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5. O que separa resolver um problema de se preocupar com ele?
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6. Alguma intervenção sua já virou reasseguramento? Como você perceberia isso a tempo?
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7. Como você reagiria, em sessão, a um paciente que encerra o tema com “vai dar tudo certo”?
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Referências
- Bennett-Levy, J., Butler, G., Fennell, M., Hackmann, A., Mueller, M., & Westbrook, D. (2004). Oxford guide to behavioural experiments in cognitive therapy. Oxford University Press.
- Borkovec, T. D., Robinson, E., Pruzinsky, T., & DePree, J. A. (1983). Preliminary exploration of worry: Some characteristics and processes. Behaviour Research and Therapy, 21(1), 9–16.
- Borkovec, T. D., Alcaine, O., & Behar, E. (2004). Avoidance theory of worry and generalized anxiety disorder. In R. G. Heimberg, C. L. Turk & D. S. Mennin (Orgs.), Generalized anxiety disorder: Advances in research and practice (pp. 77–108). Guilford Press.
- Carleton, R. N. (2016). Into the unknown: A review and synthesis of contemporary models involving uncertainty. Journal of Anxiety Disorders, 39, 30–43.
- Dugas, M. J., Gagnon, F., Ladouceur, R., & Freeston, M. H. (1998). Generalized anxiety disorder: A preliminary test of a conceptual model. Behaviour Research and Therapy, 36(2), 215–226.
- Dugas, M. J., & Robichaud, M. (2007). Cognitive-behavioral treatment for generalized anxiety disorder: From science to practice. Routledge.
- Ehring, T., & Watkins, E. R. (2008). Repetitive negative thinking as a transdiagnostic process. International Journal of Cognitive Therapy, 1(3), 192–205.
- Gosselin, P., Ladouceur, R., Langlois, F., Freeston, M. H., Dugas, M. J., & Bertrand, I. (2003). Développement et validation d'un nouvel instrument évaluant les croyances erronées à l'égard des inquiétudes [Why Worry-II]. Revue Européenne de Psychologie Appliquée, 53, 199–221.
- Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Ciarrochi, J. (2020). A process-based approach to psychological diagnosis and treatment. Clinical Psychology Review, 82, 101908.
- Meyer, T. J., Miller, M. L., Metzger, R. L., & Borkovec, T. D. (1990). Development and validation of the Penn State Worry Questionnaire. Behaviour Research and Therapy, 28(6), 487–495.
- Nolen-Hoeksema, S. (1991). Responses to depression and their effects on the duration of depressive episodes. Journal of Abnormal Psychology, 100(4), 569–582.
- Nolen-Hoeksema, S., Wisco, B. E., & Lyubomirsky, S. (2008). Rethinking rumination. Perspectives on Psychological Science, 3(5), 400–424.
- Rachman, S. (1997). A cognitive theory of obsessions. Behaviour Research and Therapy, 35(9), 793–802.
- Salkovskis, P. M. (1985). Obsessional-compulsive problems: A cognitive-behavioural analysis. Behaviour Research and Therapy, 23(5), 571–583.
- Wegner, D. M., Schneider, D. J., Carter, S. R., & White, T. L. (1987). Paradoxical effects of thought suppression. Journal of Personality and Social Psychology, 53(1), 5–13.
- Wells, A. (2009). Metacognitive therapy for anxiety and depression. Guilford Press.
- Wenzlaff, R. M., & Wegner, D. M. (2000). Thought suppression. Annual Review of Psychology, 51, 59–91.

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