Avaliação diagnóstica: formulação de caso, avaliação ecológica momentânea e as escalas
A formulação de caso como guia da avaliação e da intervenção, a avaliação ecológica momentânea como método para pegar o que a entrevista não pega, e cinco instrumentos com o que cada um mede.
Sobre este material
Material de estudo dirigido a psicólogos, escrito a partir dos slides do sétimo vídeo da disciplina, sobre avaliação diagnóstica das demandas de dependência tecnológica. Não havia transcrição.
O caso apresentado nos slides (Gustavo) é uma vinheta didática. Os instrumentos citados estão descritos como os slides os apresentam; a nota de método distingue os que têm validação publicada dos que são ferramentas da disciplina.
- A formulação guia a avaliação, e não o contrário. Predisponentes, precipitantes e um modelo que explica os problemas geram o plano. A avaliação serve para preencher essas caixas.
- Cada caixa tem um método de coleta. Entrevista aberta, anamnese e observação enchem os predisponentes; a avaliação ecológica momentânea enche os precipitantes.
- A EMA pega o que o relato retrospectivo perde. Registro no contexto real, uma vez ao dia, com viés de memória reduzido. No caso do vídeo, revelou um padrão que o paciente nunca tinha relatado.
- Dados da EMA viram plano. Horário, lugar, estado emocional e gatilho de cada episódio dizem quando e onde intervir. É personalização com base no comportamento real.
- Cinco instrumentos, cinco perguntas. EMA-DT e EDTec para o uso de tecnologia em geral; IGD-20 para jogos; G-SAS e GRCS para jogo de azar. A GRCS mede crenças, as outras medem sintomas.
A formulação de caso como guia da avaliação e da intervenção
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O vídeo abre com um esquema conhecido de formulação cognitivo-comportamental: fatores predisponentes e precipitantes alimentam um modelo psicoterapêutico (o modelo cognitivo da TCC, no exemplo do slide), e esse modelo explica os problemas 1 a 5 do paciente. O conjunto é o plano de tratamento. A ideia central é que a avaliação não é uma lista de exames a aplicar; é o trabalho de preencher essas caixas com dados bons o suficiente para o modelo funcionar.
O acréscimo do vídeo está nas duas setas de coleta. Os predisponentes se preenchem com entrevistas abertas, anamnese e observação comportamental: história de vida, temperamento, contexto familiar, o que já existia antes do uso. Os precipitantes, que são o que dispara cada episódio hoje, se preenchem com a avaliação ecológica momentânea, porque a entrevista, por melhor que seja, pede que o paciente lembre, e a memória do que aconteceu na terça à noite é ruim.
O caso do vídeo e o assistente de formulação
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O slide apresenta o FormulaPsi, assistente virtual do professor para formulação de casos em psicoterapia, e uma vinheta para treinar com ele. Gustavo, 23 anos, estudante de engenharia de software e estagiário remoto, apresenta há 18 meses uso excessivo de internet com foco em jogos online do tipo MMORPG, até 16 horas por dia, com prejuízo funcional: reprovações, faltas no estágio, negligência com autocuidados, isolamento progressivo. Relata irritabilidade intensa quando interrompido, mentiras sobre o tempo online, falhas repetidas em reduzir e sintomas de abstinência (ansiedade, taquicardia) ao tentar interromper. A avaliação aponta ansiedade e humor deprimido leve, sem critérios suficientes para transtorno depressivo maior ou ansiedade social isoladamente. Os sintomas se intensificaram no pós-pandemia e persistiram com a volta da rotina presencial.
O que a vinheta já entrega
- Critérios (vídeo 6, adaptados ao jogo pela internet): tolerância implícita nas 16 horas, abstinência, esforços malsucedidos, mentira, prejuízo em estudo e trabalho. A contagem fecha com folga.
- Predisponentes a investigar: a pandemia como contexto de instalação, o estágio remoto que mantém a tela como ambiente de trabalho e de lazer, o quadro ansioso-depressivo leve que pode ser anterior.
- Precipitantes desconhecidos: a vinheta não diz quando Gustavo joga mais, nem o que acontece pouco antes. É exatamente a lacuna que a EMA vai preencher.
Avaliação ecológica momentânea: o instrumento do vídeo
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A EMA-DT (Avaliação Ecológica Momentânea Diária para Dependência Tecnológica) é um instrumento desenvolvido para ser aplicado uma vez ao dia, com o objetivo de monitorar o uso de tecnologias digitais e suas relações com estado emocional, impulsividade e impactos funcionais. É inspirada no modelo de avaliação ecológica momentânea, que captura os dados no ambiente natural da pessoa, com foco em comportamentos e emoções recentes, reduzindo o viés de memória dos autorrelatos retrospectivos.
Os dois primeiros itens mostrados no slide dão a medida do formato: uma estimativa do tempo de uso no dia, em cinco faixas (menos de 1 hora até mais de 8), e a finalidade predominante do uso, com múltipla escolha (trabalho ou estudos, comunicação, redes sociais, jogos, streaming, outro). Os itens seguintes, pelo objetivo declarado, cobrem estado emocional, impulsividade e impacto funcional.
Por que a EMA importa
- Alta validade ecológica: o comportamento é registrado no contexto real (quarto, transporte, trabalho), o que permite capturar padrões e gatilhos contextuais, como ansiedade antes de dormir seguida de uso de redes sociais.
- Monitoramento de variações dinâmicas: flutuações diárias de humor, desejo de uso, impulsividade e sensação de controle. Identifica os momentos críticos de uso compulsivo.
- Personalização de intervenções: com os dados, o terapeuta identifica situações de risco e padrões de evitação, planeja exposições e ajusta o plano com base no comportamento real, e não só no relato.
Como ela funciona no caso
O slide mostra o que a EMA revelou num paciente de uso excessivo de redes. Os registros indicam que o uso ocorre predominantemente no quarto, entre 23h e 1h, geralmente após episódios de ansiedade noturna ligados ao trabalho do dia seguinte. Esse dado não havia sido relatado nas sessões. Ao longo de 14 dias, desejo de uso e ansiedade aumentam nos domingos à noite e em vésperas de reuniões importantes, com queda do senso de controle e aumento da impulsividade nesses períodos: um padrão cíclico de vulnerabilidade ligado a antecipações negativas.
E o plano muda em função disso: treinamento de regulação emocional nas noites de domingo; manejo das antecipações negativas; mindfulness antes de dormir para reduzir o uso automático do celular; estratégias alternativas para a hora crítica (leitura leve, áudio relaxante); planejamento e resolução de problemas; e monitoramento em tempo real da adesão, com ajuste semanal. Repare que nenhuma dessas seis intervenções poderia ter sido escolhida com precisão a partir do relato "uso muito o celular".
As escalas: o que cada uma mede
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Além da EMA, o vídeo apresenta quatro instrumentos de aplicação única, com links para baixar.
- EDTec (Escala de Dependência Tecnológica): desenvolvida para avaliar o grau de dependência de tecnologias digitais (celular, computador, redes sociais, internet). Quinze itens em cinco dimensões; responde-se com a frequência com que cada afirmação se aplica.
- IGD-20 (Internet Gaming Disorder Test): vinte itens que avaliam presença e gravidade do transtorno de jogos pela internet nos últimos doze meses, em qualquer dispositivo, online ou offline. Explora as dimensões clássicas do modelo de componentes da dependência: saliência, modificação de humor, tolerância, abstinência, conflito e recaída. Escala Likert de cinco pontos.
- G-SAS (Gambling Symptom Assessment Scale): escala padronizada para sintomas relacionados ao jogo patológico, projetada para mensurar a gravidade dos comportamentos, pensamentos e consequências emocionais associados ao jogo. O primeiro item pergunta pela intensidade média da vontade de jogar na última semana, de nenhuma a extrema. É uma escala de gravidade e de acompanhamento, boa para medir mudança semana a semana.
- GRCS (Gambling Related Cognitions Scale): 23 itens que avaliam crenças relacionadas ao jogo de azar, em cinco domínios: expectativas positivas sobre o jogo, ilusão de controle, crenças de controle preditivo, incapacidade percebida de parar e viés interpretativo. Escala de sete pontos.
Monitoramento contínuo: a HumanTrack
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O vídeo fecha com a HumanTrack, plataforma de monitoramento de saúde comportamental em tempo real, com a qual o terapeuta acompanha e avalia o progresso do paciente com dados mais precisos, aumenta a probabilidade de engajamento e mantém a segurança das informações. Na lógica do vídeo, é a EMA levada ao aplicativo: em vez de formulário em papel uma vez ao dia, registros no celular, com gráfico para o terapeuta.
O ponto pedagógico não é a ferramenta em si, e sim o que ela permite: fechar o ciclo entre avaliação e intervenção. Avaliação contínua deixa de ser "linha de base e alta" e vira o próprio instrumento de ajuste do plano, semana a semana, como o caso da seção anterior mostrou.
Lendo o vídeo em processos
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Para quem trabalha com formulação processual, este vídeo resolve um problema prático: de onde vêm os dados da rede.
- Os nós de fundo (história, temperamento, contexto) vêm da anamnese e da entrevista aberta. São estáveis, e uma boa entrevista basta.
- Os antecedentes e as consequências de cada episódio vêm da EMA. São variáveis, dependem de hora, lugar e estado, e a memória não os guarda bem. É aqui que o relato retrospectivo mais engana e a medida no momento mais rende.
- A força dos nós cognitivos vem das escalas de crença (GRCS) e a gravidade geral, das escalas de sintoma (G-SAS, IGD-20, EDTec). Servem para saber por onde entrar e para medir se a entrada funcionou.
- A rede muda, e por isso a avaliação precisa continuar. Monitoramento contínuo é o que permite ver a alça se abrindo ou se fechando, e não só o paciente dizendo que está melhor.
Na prática, o caso do vídeo mostra a sequência inteira: entrevista, EMA por duas semanas, padrão encontrado, plano ajustado ao padrão, monitoramento da adesão. É um bom protocolo de avaliação para qualquer demanda de uso de tecnologia.
1. Descreva o esquema de formulação de caso do vídeo e diga qual método de coleta alimenta cada uma das caixas da esquerda.
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2. O que é a avaliação ecológica momentânea e por que ela reduz o viés de memória dos autorrelatos?
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3. No caso do vídeo, o que a EMA revelou que o paciente não havia relatado, e como isso mudou o plano?
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4. Quais são os cinco instrumentos apresentados, e o que cada um mede?
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5. Por que a GRCS é o instrumento que melhor conversa com a primeira tarefa clínica do vídeo 5?
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6. Pense num paciente teu com uso problemático de tecnologia. O que tu sabe por relato e o que só uma EMA mostraria? Como tu montaria esse registro?
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Referências
- Kim, S. W., Grant, J. E., Potenza, M. N., Blanco, C., & Hollander, E. (2009). The Gambling Symptom Assessment Scale (G-SAS): A reliability and validity study. Psychiatry Research, 166(1), 76–84.
- Pontes, H. M., Király, O., Demetrovics, Z., & Griffiths, M. D. (2014). The conceptualisation and measurement of DSM-5 Internet Gaming Disorder: The development of the IGD-20 Test. PLoS ONE, 9(10), e110137.
- Raylu, N., & Oei, T. P. S. (2004). The Gambling Related Cognitions Scale (GRCS): Development, confirmatory factor validation and psychometric properties. Addiction, 99(6), 757–769.
- Shiffman, S., Stone, A. A., & Hufford, M. R. (2008). Ecological momentary assessment. Annual Review of Clinical Psychology, 4, 1–32.
- Persons, J. B. (2008). The case formulation approach to cognitive-behavior therapy. Guilford Press.
Fonte. Este resumo foi escrito a partir dos slides do vídeo, sem transcrição da fala. A leitura da vinheta pelos critérios, o quadro "qual usar" e a seção final em processos foram desenvolvidos pelo autor do material a partir da lógica da disciplina. A figura do esquema de formulação foi redesenhada com as duas setas de coleta que o slide acrescenta.
Sobre os instrumentos. IGD-20, G-SAS e GRCS têm desenvolvimento e validação publicados e estão nas referências. A EMA-DT e a EDTec são apresentadas nos slides como instrumentos desenvolvidos para a disciplina; o material as descreve como os slides as apresentam e não encontrou dados psicométricos publicados, o que não as invalida como ferramenta clínica de registro, mas pede cautela para usá-las como medida de gravidade comparável entre pacientes. O FormulaPsi e a HumanTrack são ferramentas citadas no vídeo, com link; o material as descreve sem avaliá-las.
Sobre o caso. Gustavo é vinheta didática dos slides, e o exemplo de EMA (uso no quarto entre 23h e 1h) é apresentado no slide como caso ilustrativo. Nenhum dado de paciente real entrou no material.
Nenhuma citação foi construída para preencher lacuna.

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