O metamodelo evolucionário estendido
O modelo que organiza os processos de mudança de qualquer abordagem — variação, seleção e retenção lidas nos domínios do funcionamento — e por que medir é parte de formular.
- O MEE não é uma abordagem: é um mapa. Ele organiza processos de mudança de qualquer orientação (DBT, ACT, TCC) sob uma lógica comum.
- Três eixos evolucionistas movem o modelo: variação (novas respostas), seleção (o que se torna mais provável) e retenção (o que se mantém por sua função — mesmo quando desadaptativo).
- O funcionamento é lido em seis domínios psicológicos — self, cognição, afeto, atenção, motivação, comportamento — atravessados por níveis (biofisiológico, sociocultural) e pelo contexto. Daí estendido.
- Processos são ciclos que se retroalimentam. A intervenção mira o núcleo que sustenta a rede, não o sintoma de superfície — e trabalha um problema por vez.
- Formular exige medir. Cuidado Baseado em Mensuração e Avaliação Ecológica Momentânea tornam visível qual processo alimenta qual, guiando onde intervir.
Por que um metamodelo — e não mais uma escola
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A segunda aula retomou o fio da primeira: os protocolos manualizados (ancorados em CID e DSM) são úteis para a pesquisa, mas engessam o olhar clínico quando tratam o paciente como se ele tivesse apenas a síndrome estudada. Se um número finito de intervenções se repete em protocolos de transtornos diferentes, faz mais sentido estudar as intervenções e os processos que elas movem do que multiplicar diagnósticos.
A Terapia Baseada em Processos (TBP) responde a isso com uma formulação em ajuste constante: identifica processos-alvo, intervém, reavalia e reformula. Isso tira do terapeuta a pressão do “jeito certo de fazer” — a intervenção é tentativa e erro monitorada, não aplicação cega de manual (Hofmann & Hayes, 2019). O deslocamento é do nomotético para o idiográfico: o foco é esta pessoa, neste contexto (Hayes et al., 2019).
O núcleo evolucionário: variação, seleção e retenção
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O Metamodelo Evolucionário Estendido (MEE) parte de uma ideia simples: o comportamento se desenvolve e se mantém pelos mesmos três eixos que a biologia evolutiva usa para explicar sistemas complexos — variação, seleção e retenção (Hayes, Hofmann & Ciarrochi, 2020; Wilson et al., 2014).
Surgimento de novas respostas no repertório. Pouca variação — como no tédio que só encontra uma saída — já é fator de manutenção do sofrimento.
Entre as respostas possíveis, uma se torna mais provável por sua função (ex.: a substância que alivia o tédio de imediato).
O que “funciona” se mantém e se repete — mesmo desadaptativo —, porque cumpre uma função no contexto.
Ler um caso por esses eixos muda a pergunta clínica: não “como extinguir o comportamento?”, e sim “que nova resposta inserir (variação), o que a torna provável (seleção) e o que mantém a antiga no lugar (retenção)?”.
Os domínios do funcionamento — e por que “estendido”
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O MEE lê o funcionamento humano em seis domínios psicológicos, que servem de mapa para localizar processos:
- Self — como a pessoa se percebe e se narra (ex.: “não sou bom o suficiente”).
- Cognição — pensamentos, regras, crenças, modos de interpretar.
- Afeto — emoções e sua regulação.
- Atenção — para onde a pessoa dirige (ou fixa) o foco.
- Motivação — valores, metas, o que aproxima ou afasta.
- Comportamento — o que a pessoa faz, no nível observável.
O modelo é evolucionário porque usa variação–seleção–retenção; e estendido porque lê esses domínios em múltiplos níveis — biofisiológico e sociocultural — e sob o contexto, que tem faces externas (ambiente, cultura) e internas (regras, crenças) (Hayes, Hofmann & Ciarrochi, 2020). É essa leitura multinível que faz do MEE um guarda-chuva: técnicas de DBT, ACT ou TCC entram conforme o domínio e o processo-alvo — não conforme o rótulo diagnóstico.
Processos são ciclos, não caixas: a metáfora do vale
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Os processos não são compartimentos isolados — eles se retroalimentam. O tédio leva ao jogo, que eleva a dopamina, que reforça o ciclo: fecha-se uma alça de manutenção. Entender essas relações entre eventos psicológicos (por exemplo, a ligação entre tédio e impulsividade) rende mais ao clínico do que decorar protocolos, porque é o que permite formular hipóteses e prever (Hofmann & Hayes, 2019).
Júlio usou a imagem de uma bolinha que rola para um “vale”: padrões repetidos (ruminar, isolar-se) têm um custo — o humor deprimido — e fazem a pessoa “cair” sempre no mesmo ponto. A terapia tira a bolinha do vale; mas, se os novos comportamentos não virarem hábito (retenção) e se o núcleo — a crença de incapacidade, a baixa autoestima — não for trabalhado, a bolinha volta a cair, mesmo com o humor já melhor. É um jeito intuitivo de dizer que intervir no sintoma de superfície não basta: é preciso mirar o processo que sustenta a rede (Borsboom, 2017).
Um problema por vez — e a função acima da forma
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Diante de um paciente com vários problemas interligados, a orientação foi trabalhar um problema por vez, começando pelo processo central — muitas vezes um só, como a impulsividade, por trás de vários comportamentos. E, antes de tentar reduzir um comportamento, perguntar qual é a sua função.
O caso Bill (exemplo da literatura)
Num caso de depressão discutido no livro, a terapeuta focou ruminação e isolamento, mas não aprofundou a função. O isolamento de Bill protegia contra a crença de “não ser bom o suficiente” — um problema de self/autoestima. Enquanto a intervenção não tocasse essa crença de incapacidade relacional, o ciclo de sofrimento se mantinha.
A lição clínica: protocolos costumam não ajudar a ver a função do comportamento; a formulação por processos existe justamente para isso.
Do sintoma à prosperidade: etapas, recaída e psicoeducação honesta
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O tratamento se organiza em etapas interdependentes: avança-se conforme o paciente mostra prontidão para novas demandas. E não se encerra na melhora superficial — é preciso preparar para contextos futuros (trabalho, família, parentalidade), onde ainda falta repertório.
Daí a centralidade da prevenção de recaída: quando alguém acredita que “resolveu” e perde a crítica sobre o risco, cabe uma psicoeducação fria e real — os contextos mudam, e recaídas podem acontecer (Marlatt & Gordon, 1985). Na redução de uso de substâncias, a escolha entre redução gradual e abrupta depende do dinamismo dos ciclos, do contexto e de quanto o uso afeta o funcionamento; se o paciente não consegue sair do contexto de uso, a redução gradual tende a ser mais indicada, e o manejo da contingência (dificultar o acesso) é parte do trabalho.
Com a maturidade profissional, a meta se desloca da mera redução de sintomas para ajudar o paciente a prosperar na vida como um todo — exatamente o horizonte que a TBP assume (Hayes, Hofmann & Ciarrochi, 2020).
Medir para formular: MBC e Avaliação Ecológica Momentânea
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Formular por processos exige medir. O Cuidado Baseado em Mensuração (MBC) é a aplicação sistemática de instrumentos para entender padrões de funcionamento — e vai além de acompanhar sintomas: ajuda a construir a rede do paciente, mostrando como os sintomas se integram ao contexto para informar decisões (Scott & Lewis, 2015).
Vale distinguir dois usos:
- Monitoramento de progresso — avaliações sessão a sessão, com medidas idiográficas ou nomotéticas.
- Mensuração de resultado — instrumentos aplicados em intervalos maiores, para verificar a redução global dos sintomas.
A ferramenta mais potente citada foi a Avaliação Ecológica Momentânea (AEM): coleta dados em tempo real no cotidiano, gerando muitas medidas repetidas (Shiffman, Stone & Hufford, 2008). Com elas dá para ver graficamente qual processo alimenta qual — por exemplo, a preocupação piorando o afeto negativo —, o que indica onde intervir. É especialmente útil em pacientes com oscilação alta (como no funcionamento borderline). E ajuda a psicoeducar que o processo é não linear: ao introduzir novas aprendizagens, os sintomas podem até piorar temporariamente antes de estabilizar.
1. O que quer dizer cada eixo — variação, seleção e retenção — e por que a baixa variação de repertório funciona como fator de manutenção do sofrimento?
2. Por que o modelo se chama “estendido”? Como os seis domínios se relacionam com os níveis (biofisiológico, sociocultural) e com o contexto?
3. No caso de Bill, por que focar a função do isolamento (proteger da crença de “não ser bom o suficiente”) muda a intervenção em relação a apenas reduzir ruminação e isolamento?
4. Que diferença há entre monitorar progresso e mensurar resultado — e o que a Avaliação Ecológica Momentânea acrescenta à construção da rede do paciente?
Referências
- Hofmann, S. G., & Hayes, S. C. (2019). The future of intervention science: Process-based therapy. Clinical Psychological Science, 7(1), 37–50.
- Hayes, S. C., Hofmann, S. G., & Ciarrochi, J. (2020). A process-based approach to psychological diagnosis and treatment: The conceptual and treatment utility of an extended evolutionary meta-model. Clinical Psychology Review, 82, 101908.
- Hayes, S. C., Hofmann, S. G., Stanton, C. E., Carpenter, J. K., Sanford, B. T., Curtiss, J. E., & Ciarrochi, J. (2019). The role of the individual in the coming era of process-based therapy. Behaviour Research and Therapy, 117, 40–53.
- Wilson, D. S., Hayes, S. C., Biglan, A., & Embry, D. D. (2014). Evolving the future: Toward a science of intentional change. Behavioral and Brain Sciences, 37(4), 395–416.
- Scott, K., & Lewis, C. C. (2015). Using measurement-based care to enhance any treatment. Cognitive and Behavioral Practice, 22(1), 49–59.
- Shiffman, S., Stone, A. A., & Hufford, M. R. (2008). Ecological momentary assessment. Annual Review of Clinical Psychology, 4, 1–32.
- Marlatt, G. A., & Gordon, J. R. (Orgs.). (1985). Relapse prevention: Maintenance strategies in the treatment of addictive behaviors. New York: Guilford Press.
- Borsboom, D. (2017). A network theory of mental disorders. World Psychiatry, 16(1), 5–13.
- Hofmann, S. G., Hayes, S. C., & Lorscheid, D. N. (2021). Learning Process-Based Therapy: A Skills Training Manual for Targeting the Core Processes of Psychological Change in Clinical Practice. Oakland, CA: New Harbinger. [Ed. bras.: Aprendendo a Terapia Baseada em Processos, cap. 2.]

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